Onze mil crianças 'reféns' do Estado
Os primeiros anos de vida são vitais para o desenvolvimento mental e emocional de uma criança. O facto de ser estimulada, de ter um colo só seu, influi decisivamente no futuro, não apenas do ponto de vista dessa coisa vaga chamada felicidade, mas ao nível concreto da inteligência, das capacidades e aptidões mentais: o sucesso ou insucesso escolar, as dificuldades de aprendizagem e até a marginalidade semeiam-se aqui. Pior, aqui não há segundas oportunidades: o que não se ganhou em determinada idade não se adquire mais tarde, ou pelo menos com a mesma qualidade.. Quando se diz que o tempo de uma criança não é o tempo de um adulto, não é poesia. É a constatação científica de que um dia na vida dos mais pequeninos não é equivalente a um dia na vida de um adulto. Dela nasce uma responsabilidade imensa. O Estado é culpado de um crime irreversível sempre que permite que uma criança seja privada do seu direito a crescer numa família, biológica ou não pouco importa. Sempre que adia soluções, merece ir a tribunal e ser condenado.
Foi agora apresentado o Relatório de Caracterização das Crianças e Jovens em Situação de Acolhimento de 2007. A conclusão final é de que alguma coisa se fez porque há «apenas» 11 362 crianças nesta situação, e não as 15 mil de que se falava há uns anos. Descontando a baixa da taxa de natalidade, que nestes casos ajuda a propaganda dos governos, o número continua a ser astronómico. Olhe para cada um daqueles dígitos como uma criança de carne e osso, que podia ser a sua. e imagine-a a adormecer numa camarata sem a festa de uma mãe, a ser apenas uma de entre muitas a ter medo de se ligar a alguém porque toda a gente importante na sua vida «desaparece» constantemente. Insuportável, não é? Mais insuportável ainda se lhe dissermos que 27% fica internada entre 1 e 3 anos, 21% entre 4 e 6 anos, e 27% mais de 6 anos. Um outro dado torna claro o que faz o desleixo ou o preconceito: 43% destas crianças não recebem visitas da família. O que é que justifica que os tribunais as deixem à espera de que o telefone toque?
A resposta de que ninguém as quer adoptar não pega. A lista de espera é de centenas de casais, os adoptados em 2007 nem chegaram aos 400. Como também não é verdade que os adoptantes só fiquem com bebés de olhos azuis. As adopções internacionais, embora difíceis, provam que os portugueses escolhem crianças mais velhas e de outras raças. Mas, mesmo que assim fosse, a culpa nunca seria dos casais, mas do sistema de segurança social e justiça que pela sua incapacidade de tomar decisões em tempo útil rouba a estes meninos a possibilidade de uma integração precoce e plena numa família. Foi a sua incapacidade, a nossa incapacidade, de velar por elas que as deixou «envelhecer» irreversivelmente entre as paredes de uma instituição.





7 comentários