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EDITORIAL

Onze mil crianças 'reféns' do Estado

22 | 09 | 2008   09.32H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Os primeiros anos de vida são vitais para o desenvolvimento mental e emocional de uma criança. O facto de ser estimulada, de ter um colo só seu, influi decisivamente no futuro, não apenas do ponto de vista dessa coisa vaga chamada felicidade, mas ao nível concreto da inteligência, das capacidades e aptidões mentais: o sucesso ou insucesso escolar, as dificuldades de aprendizagem e até a marginalidade semeiam-se aqui. Pior, aqui não há segundas oportunidades: o que não se ganhou em determinada idade não se adquire mais tarde, ou pelo menos com a mesma qualidade.. Quando se diz que o tempo de uma criança não é o tempo de um adulto, não é poesia. É a constatação científica de que um dia na vida dos mais pequeninos não é equivalente a um dia na vida de um adulto. Dela nasce uma responsabilidade imensa. O Estado é culpado de um crime irreversível sempre que permite que uma criança seja privada do seu direito a crescer numa família, biológica ou não pouco importa. Sempre que adia soluções, merece ir a tribunal e ser condenado.

Foi agora apresentado o Relatório de Caracterização das Crianças e Jovens em Situação de Acolhimento de 2007. A conclusão final é de que alguma coisa se fez porque há «apenas» 11 362 crianças nesta situação, e não as 15 mil de que se falava há uns anos. Descontando a baixa da taxa de natalidade, que nestes casos ajuda a propaganda dos governos, o número continua a ser astronómico. Olhe para cada um daqueles dígitos como uma criança de carne e osso, que podia ser a sua. e imagine-a a adormecer numa camarata sem a festa de uma mãe, a ser apenas uma de entre muitas a ter medo de se ligar a alguém porque toda a gente importante na sua vida «desaparece» constantemente. Insuportável, não é? Mais insuportável ainda se lhe dissermos que 27% fica internada entre 1 e 3 anos, 21% entre 4 e 6 anos, e 27% mais de 6 anos. Um outro dado torna claro o que faz o desleixo ou o preconceito: 43% destas crianças não recebem visitas da família. O que é que justifica que os tribunais as deixem à espera de que o telefone toque?

A resposta de que ninguém as quer adoptar não pega. A lista de espera é de centenas de casais, os adoptados em 2007 nem chegaram aos 400. Como também não é verdade que os adoptantes só fiquem com bebés de olhos azuis. As adopções internacionais, embora difíceis, provam que os portugueses escolhem crianças mais velhas e de outras raças. Mas, mesmo que assim fosse, a culpa nunca seria dos casais, mas do sistema de segurança social e justiça que pela sua incapacidade de tomar decisões em tempo útil rouba a estes meninos a possibilidade de uma integração precoce e plena numa família. Foi a sua incapacidade, a nossa incapacidade, de velar por elas que as deixou «envelhecer» irreversivelmente entre as paredes de uma instituição.

© Destak

7 comentários

  • A caminho do declínio,ou como o Estado neoliberal vê a criança e os CUSTOS sociais. Não tarda muito para a "licença de procriação após apresentação de declaração de IRS": http://www.nola.com/news/t-p/frontpage/index.ssf?/ base/news-11/122223360988730.xml&coll=1
    Ana | 26.09.2008 | 15.45H
  • Venho despedir-me destes comentários. Estou farto da tia Stilwell e do seu jornal de direita. É um jornal que nada diz à nossa sociedade, a não ser o desperdício de papel acumulado em cafés, nos autocarros e nas ruas. O que é que este jornal, como os outros que são distribuídos gratuitamente, trouxe de útil à nossa sociedade, cada vez mais vendida à lógica do mercado? Para ser franco, nada. O que é que a tia Stilwell quer com este jornal? Ganhar as comissões da publicidade que aparece no interior do seu papelão? Talvez. Para mim, é tudo sucinto, com toques de "polticamente correcto" e pseudo-cronistas "a la carte". Será que é o melhor que nós temos a nível jornalístico e literário? Não é. Vir aqui e ler as notícias, como também os comentários, é um desperdício de tempo. É um autêntico folhetim, sem eira nem beira. Querem mais? Vou também deixar de ler o Público, o Diário de Notícias, o Expresso, o Sol, o Correio da Manhã, o 24 horas e os jornais desportivos. Se quiser ler as notícias, vou aos jornais independentes da net. É melhor assim, não é? Em vez de aturar as mesmas caras, as mesmas fotografias com ar falso, as mesmas manhas pseudo-jornalísticas destes maus profissionais. Sim! São mesmo muito maus e vão continuar a estar por aí até que muitos como eu os deixem de aturar, os atirem bem para o fundo do Tejo. É incrível como todos nós aturamos as falsidades constantemente e como temos de viver com elas sem dizer a verdade. Sem desabafar, sem viver! É preciso viver para mudar e amanhã vou viver.
    MB | 22.09.2008 | 23.02H
  • STOP THE TERRORISTS OF THE AMBULANCES!! MY EARS FEEL PAIN!!!
    PAULN | 22.09.2008 | 18.32H
  • Este editorial é mais um, dos que tenho lido, honesto, corajoso, pertinente. Dou comigo a pegar no Destak só por causa dele. Parabéns! Quanto ao de hoje, tenho uma filha na universidade e muita vontade de ter outro, adoptando. Todos os meus amigos (muitos deles tentam a adopção de crianças) me têem avisado da frustração que este processo provoca em quem adopta, e nas crianças, que, após conhecerem o casal ou pessoa que os quer, ficam sonhando, criando espectativa e esperança, para depois, afinal e mais uma vez, não acontecer nada. Devíamos "recortar" o país pela fronteira espanhola, abanar bastante para cairmos todos ao Atlântico, e então fazer nascer Portugal. Mais uma vez, obrigada Isabel Stilwell.
    AFMC | 22.09.2008 | 15.00H
  • Então, JFK, andou a usar os nomes de outros comentadores para os tramar, como o do Zé Pagode? Sabe que isso é feio. Também, é baixo. No entanto, de si já estamos habituados a tudo, quando assinava os seus comentários com o nome Fernando da Costa. As melhoras.
    Simão | 22.09.2008 | 13.01H
  • Muito bem! E, se me permitem, não devia deixar de ser referido que as condições em que estas crianças se encontram são confrangedoras. Não em termos materiais, que hoje em dia já não é dramático, mas em termos de afectos e de educação! Quem trata delas são funcionários (as) públicos(as) por isso, salvo algumas excepções, as crianças são tratadas com o mesmo empenho com que se arquivam papéis...
    JFK | 22.09.2008 | 12.32H
  • Desta vez estou com a cronista! É inadmissível perante estes numeros, mais uma vez, confiar no Estado( pessoa de bem que não o é!!). Centenas ou milhares de casais, e não só, estão á espera anos para poderem adoptar, no entanto há mais de 11 mil crianças á espera durante anos! Isto revela mesmo o que é a nossa sociedade burocrática e até fascizante, quer se queira ou não, parece que se está á espera da perfeição, quando na verdade ela nem existe....! Pergunto agora ao sócrates do optimismo: onde está o seu empenho para o futuro destas crianças? vai oferecer-lhes computadores Magalhães??...
    SLB!! | 22.09.2008 | 10.29H
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