PUBLICIDADE
EDITORIAL

Porque não se fala dos 'fura-greves'?

05 | 11 | 2012   20.14H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Chego ao aeroporto de Barcelona e descubro que os autocarros e os táxis estão em greve e não vou conseguir chegar à reunião que me levou a apanhar um avião! A fila para algum taxista que decida trabalhar é longa, mas conformo-me à espera porque respeito o direito à greve. Só que dez minutos a assistir à paralisação ao vivo chegam para fazer crescer a indignação.

É que cada táxi que se aproxima é apupado e ameaçado por uma multidão de grevistas enfurecidos. Os palavrões chovem, o número da matrícula é ostensivamente registado, levando a que o táxi que ia parar se afaste, intimidado por aquele magote de gente em fúria.

Do outro lado da rua estão estacionadas três carrinhas da polícia, cuja missão é meter medo aos que metem medo, num jogo de gato e rato que enjoa num Estado que se preza livre. «Fascista, fascista», gritam a um taxista que corajosamente pára, e insultam as pessoas que se metem no carro, e só fica a vontade de ripostar com a tirada infantil do “Quem diz é quem é”.

Naquela hora e meia em que as cenas se repetiram, tomei consciência de que nós, os jornalistas, nunca falamos daqueles a quem depreciativamente chamamos de “fura-greves”, os que com coragem e convicção não têm medo de fazer valer os seus direitos, apesar das sevícias dos colegas. Nunca vi um telejornal abrir com a sua “causa”, ou serem entrevistados para uma reportagem de jornal.

Num tempo em que as greves se vão multiplicar, estes sinais de prepotência e desejo de ditadura, mesmo quando partem de quem aparentemente vocifera contra ela, vão repetir-se. Escrevo em pé na fila, e a cada novo episódio sinto a mesma raiva. Como é que é possível que aqueles a quem a greve é permitida porque vivemos numa democracia, conquistada com tanto esforço, sejam os primeiros a espezinhar os direitos dos seus adversários, numa clara demonstração de que um regime totalitário só lhes desagradava se fosse do pólo contrário ao seu? Como dizem os miúdos, medooo!

© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE