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D'ALÉM-MÁRVIO

O 1º negro da suprema corte brasileira

27 | 11 | 2012   20.32H
Márvio dos Anjos | marviodosanjos@gmail.com

Em sua posse na Presidência do Supremo Tribunal Federal do Brasil, a mais alta corte do Brasil, o juiz Joaquim Barbosa, negro de pele, pontuou na última quinta que a Justiça é indissociável da cultura.

Inegável. O conceito de Justiça muda conforme os avanços da sociedade, da ciência e dos desejos de uma coletividade. À época dos descobrimentos, por exemplo, a Igreja Católica autorizava a escravidão dos negros pelos colonizadores ibéricos. O Iluminismo, a relativização do papel da Igreja e a constante secularização da sociedade nos levaram à conclusão de que toda condição de escravo era um dos máximos fracassos da civilização – que nós brasileiros mantivemos por 66 anos, ainda que já independentes de Portugal.

Com dificuldade, o Brasil tenta se tornar uma sociedade mais justa, mas ainda falta educação. Pesquisa encomendada à consultoria britânica EIU nos pôs em penúltimo lugar numa lista de 40 países por qualidade de educação. Atrás de nós, somente a Indonésia. Esse índice é puxado para baixo pelas escolas públicas, que mal conseguem alfabetizar nossas crianças.

Por outro lado, temos 1.240 escolas para essa formação, contra 1.100 do resto do mundo inteiro, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça. Esse emaranhando, fruto de anos e anos de exigência de diploma de Direito para funcionalismo público, não nos fez um país mais justo, nem cidadãos mais conscientes do que podemos e devemos fazer, nem nossa Justiça mais rápida. Apenas enriqueceu empresários do setor de diplomas.

Levamos assim 124 anos desde a abolição dos escravos até vermos um negro chegar ao mais alto posto da Justiça brasileira. Um homem de 58 anos, filho de um pedreiro, que estudou a duras penas e conseguiu, por méritos próprios, formar-se em Direito e doutorar-se em Paris.

É fácil santificá-lo, e isso é fruto de um olhar condescendente com o elemento negro, assim como é fácil usá-lo para reforçar que o Brasil é uma democracia racial resolvida, o que tampouco somos. Joaquim é no máximo um sintoma de que o Brasil não proíbe o negro de chegar aos seus sonhos. O juiz teve acesso aos livros e às instituições e as aproveitou bem. Ao louvar a cultura, e não as cadeiras da escola de Direito, disse-nos um óbvio que tanto relutamos em praticar: não há Justiça onde há ignorância.

Márvio dos Anjos

1 comentário

  • As coisas não são bem assim. A escravidão teve o seu papel na economia (o tempo e a moral eram bem outras!) e só foi substituída pq descobriram uma coisa melhor e mais eficiente, não fosse isso poderia perdurar até talvez quase aos dias de hoje! O Brasil não fez pior nem melhor q os outros, fez igual, o Império Espanhol acabou com a escravidão na mesma época q o Brasil! Joaquim Barbosa não foi o 1º negro a chegar até ao Supremo, tivemos um pouco depois da proclamação da república e outro nos tempos de Getúlio Vargas, naquela época o presidente do Supremo era escolhido por meio eleição e não havia o rodízio q existe hoje em q basta ser ministro do Supremo para ser presidente dele. E a eleição para ser ministro é mais política do q por mérito embora seja condição sine quae non para ser considerado um currículo destacado.
    rafael | 02.12.2012 | 12.38Hdenunciar comentário
    Tem a certeza que pretende denunciar este comentário? sim não
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