EDITORIAL

A angústia de sermos irrelevantes

12 | 12 | 2012   21.50H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

Não faz sentido tolerar que as portas das casas de banho, as fachadas das casas e até os troncos das árvores sejam cobertos de grafitti, mas confesso que me tocam sempre os corações cortados por setas, com um nome de cada lado, ou apenas o nome marcado de forma que se pretende indelével.

E tocam-me porque é tão humano desejar que algumas coisas, nomeadamente quem somos e quem amamos, assumam uma existência exterior a nós mesmos, como se pudéssemos ler nelas uma razão de ser, e porque há em cada uma daquelas marcas o desejo de que permaneçam eternas. Que muito depois de nos termos ido embora desta Terra se mantenham ali para que um dia alguém pergunte e queira saber quem eram aquelas pessoas. As lápides das campas, que caem em desuso com a incineração dos corpos transformados em cinzas, serviam esse mesmo desejo, e os historiadores bem sabem como uma pedra tumular pode dizer tanto de uma vida.

Comecei este texto, acreditem ou não, com a ideia de falar de desemprego, e uma coisa tem mesmo a ver com a outra, a sério que tem. Para lá da segurança financeira que vem do trabalho, arriscava-me a dizer que a maior angústia de quem o perde é, exactamente, a de ser irrelevante. Como se ao deixar um “lugar”, se perdesse a certeza de quem se é, o conforto do papel que se sabe cumprir. E ninguém consegue viver com a sensação de que é dispensável. O desafio que qualquer desempregado enfrenta é o de encontrar formas, porventura mais genuínas e gratificantes, de voltar a sentir-se uma peça da máquina que faz girar o Universo. É sobre isso que devíamos todos estar a falar.

© Destak
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