EDITORIAL

Um recado para os vizinhos escrito a giz

13 | 12 | 2012   19.34H
Isabel Stilwell | editorial@destak.pt

As cidades podem ser locais muito solitários. As grandes cidades mais ainda, por estranho que seja a solidão instalar-se entre pessoas que vivem lado a lado, em prédios de tantos apartamentos que nem chegam os dedos das mãos para os contar e que viajam apinhadas nos mesmos transportes e se cruzam todos os dias nas ruas. Mas a verdade é que se instala, e para ficar.

A urbanista Candy Chang inventou mil formas de devolver ao espaço público a sabedoria que a vida em comunidade tinha, e que se foi perdendo. Descobri-a numa conferência do espantoso site do TED, Ideas Worth Spreading (ideias que valem a pena espalhar, em www.ted.com), onde explica o seu conceito . Para os prédios criou umas placas como aquelas dos hotéis que se penduram na porta do lado de fora para indicar se as empregadas devem arrumar o quarto, com mensagens. A ideia é que cada um possa colocá-las na porta de sua casa com mensagens do tipo “Por favor incomode das...”, podendo indicar a hora em que está disponível para os vizinhos, ou um outro que diz “Tenho para oferecer... batatas, cenouras, uma chávena de chá, dois dedos de conversa, um ouvido atento.”

Mas há mais invenções: num prédio público em ruínas, Chang colocou uma questão “O que gostava que isto fosse?”, e por baixo enormes post-its que quem passava podia preencher. E o que não faltaram foram sugestões: uma biblioteca, um café, um ginásio ou... um jardim. Aquela de que gostei mais, no entanto, foi uma fachada de um prédio abandonado pintada com uma daquelas tintas que funciona como lousa de um quadro da escola. E à pergunta “O que quero fazer antes de morrer?” seguiam-se linhas e linhas por preencher. É comovente ver como as pessoas que passam, novos e velhos, param e inscrevem o seu desejo a giz. De facto, mudar a cidade não custa muito.

© Destak
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