COLUNA VERTICAL

Alma Lusa

17 | 06 | 2014   20.57H
José Luís Seixas

Sinto-me tão português! Um fervor patriótico emaranha-se-me pela alma e atordoa-me o coração. Ouço o hino e as glândulas lacrimais excitadas pelo pó e pela emoção marejam-me os olhos de lágrimas. No meu carro ondula uma bandeira nacional oferecida por um hipermercado e fabricada na China. Todas as noites vibro com os entusiasmantes programas sobre o Mundial e sobre os heróis hodiernos, esses portugueses de raça que galgam os relvados em busca do desforço coletivo de um povo em sofrimento. No dia dos nossos jogos, pinto a cara de verde e vermelho, envergo camisola da FPF, abafo-me com cachecol a condizer, fardo os meninos e o cão e dou folga à mulher a dias.

Sinto-me tão português! O meu entusiasmo foi tanto que inventei atrozes padecimentos de toda a minha parentela para justificar as faltas ao trabalho. Observo a plêiade de eleitos que compõem a nossa selecção. O País, rendido, vê-os correr (pouco) e percorrer (mais) as grandes e pequenas áreas, as linhas de fundo que antes eram de cabeceira e, extasiado, sente-se lá. Esforçando-se quanto basta, esperançado na intervenção da Providência. Eles são os nossos guerreiros, capitaneados com tranquilidade pelo reinventado Infante D. Henrique que a publicidade de uma cerveja colocou na Ponta de Sagres olhando o oceano infinito.

Sinto-me tão português! Espero do futebol tudo: a redenção nacional, o milagre económico, a alienação do momento que vivo. Exijo dos nossos jogadores que ultrapassem as nossas eternas idiossincrasias. Quero ser, através deles, realidade distinta e de distinta importância no contexto europeu.

© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE