COLUNA VERTICAL

Memórias

24 | 06 | 2014   22.17H
José Luís Seixas

À medida que a vida avança, o sentimento de perda agudiza-se. Perdemos memória, agilidade motora, encanto, saúde. É certo que ganhamos experiência, distanciamento do efémero, alguma bonomia e maior tolerância. Isto, obviamente, numa enunciação imprecisa porque resultante da generalização do que não é generalizável. Ganhamos e perdemos, proporcional ou desproporcionalmente, consoante os casos. Sobretudo, vamos aumentando as nossas recordações. Recordações do passado, felizes ou infelizes, mas sempre de episódios, momentos, vidas, circunstâncias que foram e não voltarão a sê-lo.

Quando passamos mais tempo a chorar os mortos do que a saudar as vidas que despontam é sinal que chegamos a meio dessa ponte de pilares débeis que conforma a nossa própria existência. Olhamo-nos e sentimo-nos crescentemente sós. Não só pela partida dos que amamos. Mas pelo desaparecimento de pessoas que, nos diversos ângulos desse poliedro de que se faz o nosso quotidiano, frequentemente tocávamos. Ou nos tocavam. Que escreviam o que liamos e comentávamos, que cantavam o que ouvíamos e nos enlevava ou que, simplesmente, nos abriam a porta, nos saudavam, travavam breves diálogos de ocasião. Integraram a nossa contemporaneidade.

Gente que conhecíamos ou apenas reconhecíamos. De que gostávamos ou nos eram indiferentes. O nosso acervo dessas recordações aumenta a uma cadência que assusta. Sabemos todos que este é o ritmo inexorável da vida. Mas, cá por mim, preferia que este caminho fosse um pouco mais lento e compassado. Vem isto a propósito de um jornalista que partiu e com quem convivi uns dias numa viagem oficial à Baía. Nunca mais o vi. Apenas o fui lendo. É dos muitos que adiciono às minhas já vastas memórias.

© Destak
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