COLUNA VERTICAL

Reforma da República (versão revisitada 13 anos depois)

22 | 07 | 2014   21.58H
José Luís Seixas

Resolveu a República, neste período estival, debruçar-se sobre o seu futuro. Achava-se pesadona, com celulite e sem charme. Estava empenhada e dentro de anos finava-se-lhe a pensão.

Arrostou a imponência do seu corpo de matrona e empinou-se, soerguendo o busto que suportou nos braços gordos e rosados. Sentada em maiple de veludo verde desbotado libertou os calos da prisão dos chinelos comprados nos chineses e dispôs-se a ouvir os seus filhos.

Colocou-lhes a questão. A algazarra era muita. O barulho ensurdecedor. O resultado inconclusivo. A Senhora inquietou-se e, abespinhada, descruzou os braços e deixou cair o busto.

Brandiu no ar o chinelo e ameaçou com a sua letalidade. Instalou-se um prudente silêncio, só interrompido pela sussurada proposta de ser constituída uma Comissão. A aprovação foi unânime.

O chinelo sossegou e a esperança renasceu. Peroraram os filhos mais ilustres, os tidos por ilustres e os que se julgam igualmente ilustres. Com brilho e chama cada um discorreu sobre as causas, suas origens e respectivos antecedentes.

Apresentaram receitas genéricas, recomendaram terapias específicas e todos, sem exceção, prometeram a cura. A mesa fora farta e o debate prolongou-se. Foi-se o queijo, foi-se o pão, foi-se o vinho.

Por consenso deliberou-se a incursão à despensa, em busca de mais alimento. Havia que concluir. O assalto decorreu com atropelos e incidentes menores. Regressaram saciados e dispostos a prosseguir.

E por entre tanto entusiasmo nenhum reparou que a Velha Senhora enfastiada se levantou, calçou os chinelos e olhou para as prateleiras vazias. Saturada dos maus tratos e padecimentos que sofreu recolheu-se, descrente, pobre e amargurada.

Asseguram alguns que a ouviram murmurar: “e fui eu que os pari!”

© Destak
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