COLUNA VERTICAL

Podemos?

04 | 11 | 2014   22.52H
José Luís Seixas

Os resultados da sondagem realizada em Espanha sinalizando a eventual vitória eleitoral do novo partido e a defenestração dos partidos tradicionais da alternância merece séria ponderação. 

O Podemos de Pablo Iglesias emerge na política espanhola como a “convergência dos descontentamentos”, englobando movimentos cívicos de protesto e personalidades independentes provindas de vários horizontes ideológicos. É uma amálgama relativamente informe de muitas contestações ao sistema partidário espanhol e às reformas económicas e sociais feitas devido à crise. 

O seu “cimento” parece reduzir-se a um grito libertário, quase anárquico, que proclama o fim de um tempo. A sua infância – que se presumia imaculada – indicia que a retórica nem sempre acompanha a realidade: já registou divisões e dissídios, já abandonou identificações inconvenientes, já reviu as propostas mais radicais. 

Porém, o prestígio e carisma de Pablo Iglesias vai capitalizando, face aos escândalos repetidos de corrupção e de abuso de poder que envolvem os partidos de governo, atingem a Casa Real, maculam o Poder Judicial e se dispersam e atomizam pelas autonomias. 

O Podemos é, pois, um grupo de revolta. Mais do que uma afirmação é uma negação. Mais do que o “podemos porque somos capazes” será o “já não podemos mais”.

Este fenómeno não pode ser ignorado em Portugal. Ouvir, quase como autoflagelação, o debate do OE e observar Governo e Oposição só consente uma conclusão: os partidos não percebem o precipício para onde conduzem a democracia e o País. 

Só nos causa espanto a presença perseverante neste buraco negro de algumas personalidades respeitáveis, infelizmente cada vez menos. Mas fica o aviso: o Podemos não tem patente. Pode provir da esquerda ou da direita. É gerado pela exasperação dos governados relativamente à necedade dos seus governantes. Presentes ou alternativamente futuros!

© Destak
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