COLUNA VERTICAL

A justiça espetáculo

25 | 11 | 2014   22.54H
José Luís Seixas

A reação popular à detenção de Sócrates não causa estupefação. A rutura da maioria dos portugueses com o ex-líder do PS é absoluta e rancorosa. 

Para muitos, Sócrates não foi só um mau primeiro-ministro que atirou o País para a pior crise dos últimos 40 anos. Protagonizou escândalos que atingiram o seu caráter e denegriram a sua personalidade. 

O seu registo histórico exibe muitas trapalhadas mal esclarecidas. Tudo apimentado por uma arrogância insuportável. Curiosamente, Sócrates foi erigido em herói no primeiro mandato. No segundo transfigurou-se em vilão. 

Metamorfose que se ia prefigurando na proporção da perturbação que crescia perante cada nova suspeição. Reconheça-se, porém, o seu indiscutível carisma. Foi amado e odiado. Sentimentos que hoje perduram no partido que dirigiu e, possivelmente, no próprio país. 

Mas é fundamental que não se confundam os planos. Sócrates indiciado ou arguido é inocente até o trânsito em julgado de eventual sentença condenatória. Sei que todos o repetem. Mas poucos o interiorizam. 

Não só com Sócrates. Mas quanto a muitas figuras públicas que se veem julgadas na praça pública por uma “justiça espetáculo” que se montou pretendendo inculcar a ideia de que as instituições judiciárias não temem os poderosos. 

O problema surge quando, volvidos anos, desmontado o circo, os apodados de poderosos se revelam inocentes. Entretanto as suas vidas foram desfeitas, as famílias dilaceradas e a sua honra incinerada. 

Por isso, a impunidade não acabou ainda. Só acabará com a cabal demonstração da culpa e a decorrente condenação em pena proporcional ao mal praticado e à prevenção geral.

 As detenções para interrogatório feitas à sexta-feira em prime time não passam de voyeurismo judiciário que não enobrece a Justiça e nada abona a favor do Estado de Direito.

© Destak
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