COLUNA VERTICAL

Viragem histórica?

02 | 12 | 2014   22.10H
José Luís Seixas

Muito se tem falado do novo discurso de esquerda que resultou do Congresso do PS. Viragem histórica, regresso às origens, auspícios da unidade das esquerdas, retoma de políticas de alternativa, o fim do “centrão” das práticas e dos interesses. 

Os comentários sobre o tema incensaram a mudança e ungiram o protagonista. Mas os discursos e proclamações não passaram de pura retórica pré-eleitoral. 

A visão humanista, retratada em episódios de vida que o novo líder expendeu, teve algum efeito encantatório. Assim como o piscar de olhos ao eleitorado católico com as referências ao Papa Francisco. 

Tudo isto fará sentido numa lógica de agregação de descontentamentos com os atuais Governo e Europa que muitos partilham. Porém, no meio de tanta verborreia, ficou por esclarecer o essencial: e o dinheiro? E os meios para fazer tanto por tantos? E as políticas concretas? E os mecanismos que poderão conduzir ao resultado salvífico anunciado? 

Estas são as questões que quedaram por responder. Costa não virou à esquerda, quis captar o descontentamento. E sabe que só o poderá fazer rompendo com as forças dominantes e apontando outros horizontes de governação. 

O perigo sério é esta bipolarização redundar num centro descoberto, relegando à orfandade uma classe média que teme ruturas e não quer a continuidade. Aí abre-se um buraco que poderá ser preenchido pela mais desavergonhada demagogia. 

Costa deveria pensar nisto. Como Passos. O momento atual não está para devaneios ideológicos. O modelo liberal claudicou, o providencial tornou-se demográfica e financeiramente insustentável. 

Digam o que disserem Costa ou Passos, ou um qualquer terceiro, a governação será cada vez mais um ónus e cada vez menos um desejo. Porque não será capaz, a curto prazo, de satisfazer os descontentes, nem de insuflar de ânimo o que vai agonizando. 

O resto são palavras. Infelizmente.

© Destak
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