COLUNA VERTICAL

"Je Suis Charlie" não basta

13 | 01 | 2015   22.18H
José Luís Seixas

A mudança dos paradigmas que marcaram culturas, quotidianos e vidas não é indiferente a tudo quanto vivemos. Os anos de ouro da Europa reconstruída da guerra foram erigidos à sombra de duas grandes ideologias. 

Por um lado, a social-democracia, com forte tradição sindical e trabalhista e, por outro, a democracia-cristã, filha doutrinária da Rerum Novarum, conservadora e defensora da economia social de mercado. Ambas convergiam no essencial: no humanismo, no primado da justiça social, na construção de um Estado que se regia pelos valores importados do cristianismo. 

Foi uma época de ouro que criou gerações na expetativa de vidas seguras, protegidas e com futuro. O Muro de Berlim caiu, a guerra fria cessou e o mundo soviético desmoronou-se. Parecia ter-se cumprido o ideal de Gaulle da Europa do Atlântico aos Urais. 

O que se viu, porém, foi um enorme, um gigantesco equívoco. As grandes lideranças do pós-guerra não tiveram descendentes. O capitalismo sentiu-se liberto e desenfreou-se. As ideologias clássicas sucumbiram e travestiram-se num liberalismo laicista potenciador de muitos anacronismos. 

O Homem julgou-se dono de si próprio, indiferente ao seu semelhante e à sua comunidade, alheado de tudo aquilo que implicasse a diminuição da sua “felicidade” ou do seu “prazer”. Felicidade e prazer observados como fins em si mesmos, desígnios de vida e objetivos de futuro. E tudo se foi tornando vazio. 

A demografia europeia e ocidental diminuiu abruptamente, a resposta institucional foi acolhida como solução para os velhos, para os deficientes e para os desinseridos, todas as imagens de sofrimento, de exclusão e de pobreza eram varridas da nossa consciência por entendermos que ao Estado cabia, com os nossos impostos, resolver os problemas e poupar-nos ao desagradável espectro da visualização da degradação. 

É por tudo isto que importa saber o que sobrará da barbárie vivida em Paris: a proclamação do respeito pela vida e do amor à liberdade feita em multidão? O medo que nos tolhe quando sozinhos? Ou o propósito de nos revisitarmos nos valores que foram os nossos e que esmagamos por conveniência e preguiça?

© Destak
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