COLUNA VERTICAL

Atenas e a memória

27 | 01 | 2015   22.06H
José Luís Seixas

Há quem ouça o grito da revolta europeia provindo de Atenas. Nada será como dantes, exclama-se com convicção e bravura. A velha Grécia pôs na ordem a velha Europa, conclui-se. 

As ameaças alemãs favoreceram a indignação patriótica grega protagonizada por uma improvável aliança entre radicais de esquerda e de direita, alvitra-se. Outras vozes há, porventura mais serenas, que reclamam moratória para exprimir opinião. 

Ninguém, em boa verdade, pode adivinhar, ou controlar, o futuro imediato da Europa. Não apenas por causa do fenómeno grego. Mas pelas portas que abriu. 

Marine Le Pén regozijou. Como o “Podemos” espanhol, herdeiro direto do anarco-populismo do princípio do século passado. Como o nacionalismo britânico robustecido pelas sondagens favoráveis à saída da União Europeia. Como os movimentos independentistas emergentes, com discursos de rutura e de revivalismo histórico, eventuais antecâmeras da desagregação do atual mapa político europeu. 

Em suma, é bom que quem vibrou com a vitória dos radicais de esquerda na Grécia não se esqueça de tudo o resto que perpassa a Europa. As eleições helénicas poderão ter sido o princípio de uma revolução. Todos testemunhamos o seu início. Mas ninguém pode adivinhar o seu fim. 

Faltam-nos Churchill, Adenauer, Schumman, De Gasperi. Faltam-nos as vozes tribunícias que deram corpo e forma a um sonho que a inconsciência e a ignorância dos atuais protagonistas dissiparam. Falta-nos a sabedoria dos velhos, ignorada, menosprezada e maltratada. 

Falta-nos a memória da Europa das guerras do século XX para percebermos que nada disto é novo. É, tão só, uma triste revisitação de um passado não muito distante!   

© Destak
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