COLUNA VERTICAL

Tempo de Páscoa

31 | 03 | 2015   22.56H
José Luís Seixas

Num Estado laicizado e numa sociedade profundamente refractária à religiosidade vive-se a Semana Santa com a indiferença decorrente pontuada apenas pelo sol que desabrocha, pelo calor que dá sinais de graça e pela busca de dias de férias independentemente do motivo ou até da designação. 

A ruptura do quotidiano faz-se em busca do gozo e do descanso que o calendário propicia precisamente em evocação do momento mais importante da vida cristã: a celebração da morte e da ressurreição de Jesus. 

Esta quadra, que tem na sua essência o sacrifício maior – a morte do Filho de Deus para redenção dos pecados do mundo -, confina-se às amêndoas, aos coelhos de chocolate, aos ovos de cores várias, aos folares e à pausa laboral. 

Indiferente ao verdadeiro sentido das coisas e ao apelo místico que vamos silenciando mergulhados como estamos no bulício dos dias. No entanto, no alto da Cruz Jesus agoniza e pede perdão ao Pai por quem o matou. “Eles não sabem o que fazem”. 

E quem o matou não foi a pusilanimidade de Pilatos. Foi a multidão ululante que apelou à libertação do ladrão em detrimento do Justo. Este episódio consubstancia todas as grandes tragédias humanas. Todas feitas de uma maldade que exala da perfídia de alguns, se colectiviza e se torna avassaladora. 

A resposta daqueles homens e mulheres a Pilatos, secundada pelo clamor condenatório e impiedoso “crucifica-O, crucifica-O”, tem sido tantas e tantas vezes replicada ao longo destes dois milénios que fazem da Páscoa, de cada Páscoa, uma prece para que o exemplo da Cruz ecoe no coração cada vez mais coriáceo e empedernido dos homens. 

Uma Santa Páscoa.

© Destak
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