COLUNA VERTICAL

O horizonte do desespero

21 | 04 | 2015   22.14H
José Luís Seixas

As imagens dramáticas que nestes dias povoam as televisões de milhares de seres humanos que se amontoam em barcaças enfrentando o Mediterrâneo na esperança de aportar a uma Europa próspera, aberta e solidária são um libelo acusatório à consciência de todos nós. 

Muitas destas pessoas encaram o perigo de perecerem na travessia ou de serem repudiados à chegada como o menor dos problemas. Por entre esta multidão faminta e desesperada há gente que teve vidas estáveis, com perspetivas,
estruturas familiares sedimentadas. 

Constituem o resultado das políticas externas americanas e europeias erráticas que desconsideraram os ensinamentos da História, numa rejeição obstinada pelas singularidades e idiossincrasias daquela região, persistindo em ignorar o perigo de exportar revoluções sem assegurar continuidade e apoio consistente aos poderes adventícios. 

O desastre da guerra do Iraque e a “primavera árabe” induzida por potências terceiras numa lógica geoestratégica hoje bem conhecida, destruíram Estados, ressuscitaram conflitos religiosos, tribalismos e potenciaram ambições hegemónicas. 

Todos assistimos ao entusiasmo europeu e norte-americano pela queda dos então ditadores iraquiano, líbio, egípcio e pelo cerco ao déspota sírio. Queda para a qual todos trabalharam e contribuíram. O resultado foi este. 

As manifestações populares apologéticas da liberdade cedo terminaram à bala. Os conflitos religiosos e étnicos ressurgiram. As guerras civis instalaram-se. O Estado Islâmico emergiu. As populações fogem da guerra e dos massacres. 

A Europa não sabe o que fazer com estas multidões de novos emigrantes, muitos dos quais são refugiados. Os EUA assobiam para o lado. Realmente não é nas praias da Califórnia que aportam os vivos e os mortos da loucura da fuga da morte certa para uma vida totalmente incerta...!

© Destak
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