COLUNA VERTICAL

Os acordos

10 | 11 | 2015   21.44H
José Luís Seixas

Eram as 13 horas e 45 minutos. Num gabinete da ala nova da Assembleia da República PCP, PEV e Bloco de Esquerda fizeram fila para, cada um por sua vez, assinarem os respectivos acordos de incidência parlamentar que, dizem, sustentarão o governo a constituir pelo PS. 

Recatadamente, longe dos olhares públicos. O PCP exigiu, o PS acatou e os demais aceitaram. E assim se outorgaram três documentos – três – que conformam a solvência da solução socialista e que, na opinião de muitos, consubstanciam momento épico da história democrática portuguesa. 

A esquerda do PS foi resgatada para a respeitabilidade do poder destruindo essa coisa democraticamente conspícua do “arco da governação”. O “como” é mais complexo e duvidoso. 

Na verdade, o que se lê nos três acordos são enunciados de considerações avulsas, algumas cedências objectivas e perigosas para a estabilidade financeira e para o equilíbrio orçamental, tudo envelopado num texto proclamatório como convém e os outorgantes tanto gostam. 

No entanto, de compromissos futuros pouco se diz além dos sempre pios propósitos de “estudar”, “analisar”, “tentar consensualizar”. O PCP arrima-se a não votar moções de censura da “direita”, o que, no entanto, não pressupõe, por exemplo, não apresentar moções de censura próprias que a “direita” vote.

Abertura ao diálogo na preparação das propostas de Orçamento não implica a sua votação favorável. Enfim, estes acordos à esquerda do PS representam, quanto ao futuro, uma preocupante vacuidade. Tudo se resume, enfim, a uma união de ocasião que, como foi admitido e confessado pelos signatários, não corresponde a um programa político comum com o qual cada um se identifique. 

O seu fim visa impedir a direita liberal de governar. Vendendo, se necessário, a alma ao Diabo. Neste particular o PS foi tolerante e generoso. 

As contrapartes permanecem no doce remanso parlamentar. Sem preocupações de governo nem as responsabilidades decorrentes. Importa, porém, não desmerecer a habilidade do Dr. Costa. 

Observará o vazio e os equívocos ínsitos nos acordos assinados quase que clandestinamente e que lhe garantiram a assunção do Governo pela esquerda. E, possivelmente, cogitará como, dentro de algum tempo, temperados os ânimos, conseguirá governar com a direita. 

Há quem aposte. Lautos jantares. Agora que se prenuncia a descida do IVA para a restauração…

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

© Destak
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