COLUNA VERTICAL

A grande mudança?

05 | 01 | 2016   22.00H
José Luís Seixas

O anúncio da saída do Dr. Paulo Portas da liderança do CDS/PP foi, porventura, a notícia mais importante deste final de ano no âmbito da política nacional. Muito se escreveu já sobre as suas razões e sobre o tempo escolhido. 

Mas, mais do que o panegírico das qualidades do líder que voluntariamente abdica importa pontuar o que verdadeiramente está em causa. Desde o governo Barroso, a direita portuguesa (qualificação equívoca, mas facilitadora) acantonou-se numa visão liberal da sociedade, apostando num discurso alinhado com as correntes dominantes dos movimentos da nova direita europeia, os quais, por seu turno, tudo beberam da Escola de Chicago e pouco recordaram das raízes fundadoras dos próprios partidos que representavam. 

Esse discurso tornou-se “vírico” (neologismo desagradável mas em voga) junto da opinião pública. Os valores do dinheiro, da ganância, do sucesso, do consumismo e do imediatismo incineraram outros que foram a matriz doutrinária original desses horizontes partidários. 

A democracia-cristã desapareceu, como desapareceu a social-democracia. O liberalismo contaminou tudo. À excepção de uma esquerda que se viu radicalizada mais em consequência do fenómeno do que em razão de uma vontade própria e livremente determinada. E da extrema-direita que foi assumindo o bastão do patrioteirismo (que não patriotismo) e da moralidade pública assim conquistando apoios através de uma reciclada verborreia populista. 

Porém, a crise de 2008 e as suas dramáticas réplicas puseram a nu o falhanço desta “narrativa” de verdades únicas sobre as absolutas virtudes do mercado. Este revelou-se vulnerável e susceptível das piores manipulações. 

O sucesso revelou-se efémero. E o consumismo só possível com padrões colectivos de vida que existiam porque alimentados artificialmente. Este fogo-fátuo neoliberal que varreu a direita, e não só, extinguiu-se. E hoje vivemos sem referências. 

Os partidos fundadores da Europa, em desespero, buscam as suas raízes. Novas formações emergentes tentam, como abutres, abocanhar os órfãos daqueles ideais esventrados. 

Ora, a sageza do Dr. Portas levou-o a perceber em tempo que deveria dar espaço a uma refundação do partido feita com gente nova e diferente capaz de o fazer regressar ao radicalismo da democracia-cristã e aos novos combates que ela concita: basicamente interiorizar o pensamento nuclear da Doutrina Social da Igreja segundo o qual a economia serve a política e esta só faz sentido se tiver no seu centro o Homem, ser único e irrepetível, na sua individualidade e circunstância concretas. 

Será isso que vai acontecer? Será isso que Portas forçará que aconteça aquietando quem terá de aquietar e deixando voar quem poderá protagonizar esta revolução?

O autor opta por escrever de acordo com a antiga ortografia

© Destak
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