COLUNA VERTICAL

Momentos de verdade

02 | 02 | 2016   22.55H
José Luís Seixas

Por entre a espuma do tempo momentos há em que somos confrontados com a verdadeira dimensão da vida, efémera, instável e sempre imprevisível. Esta constatação, de tão frequente, torna-se trivial no que concerne às circunstâncias exógenas que nos atingem enquanto destinatários da notícia das incessantes tragédias que assolam este mundo. 

Cresce em significado e impressividade quando nos toca de perto pela perda de quem amamos ou só conhecíamos e compartilhamos alguma coisa do nosso quotidiano. Mas torna-se absoluta quando nos interpela de forma descaradamente directa. Quando sentimos que o momento de deixar de ser pode, na realidade, existir de forma inapelável e fulminante. 

Aí, nesse preciso instante – porque de um instante se trata –, percebemos a dimensão da circunstância e a insegurança do momento seguinte. Sentimo-nos em cima da ponte que se esboroa deslizando para o abismo. À nossa frente, nessa iminência, sucede-se um caleidoscópio de imagens que retratam os nossos afectos, mas também o que somos, fomos e fizemos, o que poderíamos ter sido e não quisemos ou conseguimos ser. 

E, olhando o ecrã desta projecção íntima, percebemos a futilidade das coisas. Nesse momento, que representamos como definitivo, pouco nos interessam os projectos, as disputas, os bens, as ambições, as relações de conveniência. Fixamo-nos na nossa própria essência, no reduto mais recôndito de nós. 

É essa pequena fotografia dos que amamos que se agiganta no ecrã, o domina e nos envolve. Tudo isto para concluir que, nesse momento, percebemos o quanto é relativo nestas nossas vidas feitas de sentimentos imediatos e desejos descartáveis. O que verdadeiramente vale é o que fica. 

E o que fica é o que fizemos de bem e o bem que fizemos a cada um dos muitos com que nos cruzamos. Talvez por isso estas experiências – dizem – nos modificam e, por vezes, revolucionam.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.    

© Destak
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