COLUNA VERTICAL

A crise do capital

19 | 04 | 2016   21.47H
José Luís Seixas
Todos temos a percepção de que a incessante catadupa de notícias sobre o sector financeiro tem gerado uma perigosa e incontornável erosão no mercado de capitais. A banca vive do seu activo reputacional. Durante décadas, as instituições portuguesas de crédito foram reconhecidas pela sua qualidade, confiança, eficiência e solvabilidade. Como hoje se sabe, nem tudo o que reluzia era ouro. O certo é que, sustentada nesta imagem, foi erigida na espinha dorsal de uma economia crescentemente terciarizada. A banca pôs e dispôs, definiu a política económica, substituiu-se consentidamente aos governos na definição dos investimentos estratégicos, exerceu um poder soberano e insidicado. E, bem à portuguesa, do oitenta passou-se ao oito. Hoje, o sector financeiro é visto como o “calcanhar de Aquiles” da nossa economia. As pessoas descrêem num negócio de natureza eminentemente fiduciária. E a descrença, ou a desconfiança, gera menos investimento, fuga de capitais, enfim, depauperamento generalizado, porque há menor capacidade para financiamento das empresas e das famílias. Este cenário dantesco era previsível? Claro que era. As medidas adoptadas podem sustar a crise? Obviamente que não. Porque tardias e porque tíbias. Não é com disputas públicas entre Governo e Banco de Portugal que alguma coisa se concerta. Muito menos com uma parte da maioria parlamentar a clamar pela nacionalização do sector e pelo agravamento fiscal das receitas de capital. Portugal teve todas as condições para ser um País amigo do investimento. A cupidez de uns, a ambição de muitos outros e o espírito de volframista reencarnado em modelos mais sofisticados que dominou tantos deram o resultado que vemos. Seja qual for o epílogo do “romance” do BPI e as ondas de choque que irremediavelmente provocará, só a nossa inquebrantável fé pode evitar coisas piores. Muito piores. O autor opta por escrever de acordo com a antiga ortografia
© Destak
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