COLUNA VERTICAL

Piedade e compaixão

18 | 05 | 2016   22.40H
José Luís Seixas
Reflectindo sobre o conceito de piedade, o Papa Francisco questionou: «Quantas vezes vemos pessoas que cuidam de gatos e cães e deixam sem ajuda o vizinho que passa fome?» Concluindo que «não se pode confundir a compaixão pelos animais, que exagera no interesse para com eles, enquanto se fica indiferente perante o sofrimento do próximo». E interpelou-nos para cultivar a piedade «sacudindo de cima a indiferença que impede cada um de reconhecer o sofrimento dos outros e libertar-se da escravatura do bem-estar material». É uma bênção percepcionar a oportunidade e a força das palavras do Papa na luta contra esta corrente que parece arrastar o mundo para a decadência moral. Neste caso, deu-se a coincidência de uma parte da Sua mensagem colidir com as inovações legislativas sobre os direitos dos animais, nova questão fracturante inventada por essa não existência política denominada “PAN”. Esta lógica de olhar os animais como pessoas e ignorar as pessoas como se de animais se tratassem é a representação clara da subversão de todos os valores. E é isso que, numa introspecção corajosa, admitimos fazer. Acarinhamos o cachorrinho que tratamos principescamente e evitamos olhar o pedinte ou o vagabundo ou o andrajoso porque nos perturba a confrontação com a miséria, a desgraça, ou a fealdade. Evidentemente que encontramos sempre desculpas: desde a falta de tempo às redes de mendicidade, que não omitem a mendicidade em si mesma, e tantas outras. Se nos preocupássemos tanto com a miséria que campeia como em levar canídeos à rua a verter águas porventura seríamos melhores pessoas. Deve ser uma coisa genética: sou bem mais sensível ao sofrimento humano que ao animal. Talvez para a “causa animal” cometa um crime. Assumo! O autor opta por escrever de acordo com a antiga ortografia
© Destak
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