COLUNA VERTICAL

O copo vazio

15 | 06 | 2016   00.05H
José Luís Seixas
Na disputa entre o optimista e o pessimista, a figura do “copo a meio” surge como metáfora recorrente. Os conceitos do “meio cheio” e do “meio vazio” substantivam a diferença e qualificam-na. Momentos históricos há, no entanto, em que a água ou o vinho (como se queira) recobre apenas o fundo do copo não consentindo sequer controvérsias. Vem isto a propósito da crise do sistema financeiro e do seu último episódio protagonizado pela CGD. O engraçado em Portugal – embora a propensão seja mais para chorar do que para sorrir – é que todas estas situações que emergem na praça pública como se de bombas se tratassem eram conhecidas há tempos pelo comum cidadão medianamente informado. O “buraco” da Caixa, que alguém abriu em benefício de quem bem se sabe, conformava um “segredo de Polichinelo”. O mais curioso, porém, é que todos os “buracos” que destruíram a banca nacional tiveram a mesma origem. BPN, BPP, BES, BANIF e agora CGD (esperando que por aqui nos quedemos) foram vítimas de governações abutres e criminosas, de favorecimentos e mancomunações, de práticas persistentes de ludibriar as entidades reguladoras e de aproveitamento doloso da iliteracia financeira da clientela. Não foi a crise internacional que incinerou estas instituições. Foram homens, com nome e rosto. Aproveitaram os tempos das “vacas gordas” e engenhosamente criaram teias de cumplicidades várias com vários poderes. O curioso é que só em alguns casos estes foram denunciados. Na CGD parece pressentir-se rebuço a mais de muito lado para a dimensão da cratera que os nossos impostos terão de tapar.
© Destak
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