COLUNA VERTICAL

A ópera fiscal

18 | 10 | 2016   22.20H
José Luís Seixas
A proposta de OE para 2017 é uma terna e doce melodia que tenta inebriar o depauperado contribuinte. Não na crueza dos impostos e na dolorosa realidade em que se traduzirão. Mas nos seus melodiosos fundamentos, na exaltante declamação do seu fim, na conjugação sintónica de todos eles, como integrando uma pauta serena para violino e piano de cauda. A prolixidade fiscal atravessa os nossos tímpanos como um apontamento operático em que cada ária representa um tributo e a música envolvente a justificação. Cria-se o enésimo imposto sobre o património, mas é para sustentar a segurança social. Lança-se um imposto sobre os açúcares e as bebidas açucaradas, mas é para proteger a saúde. Aumenta-se o imposto de circulação, mas é para despoluir o ambiente. Tributa-se o alojamento local, mas é para criar uma sã proporcionalidade entre turistas e residentes. Inova-se numa taxa para as balas, mas é, seguramente, para proteger os coelhos, as perdizes e as rolas. E por aí fora. Todas estas novidades tributárias são reportadas pelo governo e pela maioria na cadência de um compasso que nos embala e quase nos encanta. A equipa das Finanças está de parabéns. Parece um coro, com Centeno a soprano e o seu vasto secretário de estado Rocha Andrade a tenor. Mas, isolada a letra e silenciada a música, descobre-se uma autêntica metralha fiscal pronta a disparar sobre tudo o que tem conseguido sobreviver. Esta canção orçamental de embalar terá custos graves para o País. Não é preciso grande perspicácia: estagnação, receita aquém do estimado por crescimento da economia informal e da evasão fiscal e, lá para Julho, rectificativo à bruta, com saque do pouco que restou. Ou seja, tudo não terá passado de uma ópera bufa! O autor opta por escrever de acordo com a antiga ortografia
© Destak
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