HORA BOLAS

Coisas e causas

31 | 10 | 2016   11.18H
João Malheiro

Na Europa, cada manifestação do orgulho gay contou, em média, com 100 mil pessoas; cada manifestação contra a corrupção teve, em média, 2 mil e 500 pessoas; estatiscamente, fica provado que há mais gente a lutar pelo direito de levar no rabo do que lutar para não ser enrabado”.

A frase é do Miguel Esteves Cardoso, um dos mais proeminentes cronistas nacionais. Não me consta que tenha sido acusado de homofobia. Se foi, foi mal, tanto que se reportou a factos, até com precisão matemática, essa que é uma ciência exata. O MEC, do qual tantas vezes divirjo, mas outras tantas me delicio, não é vulgar, não é torpe, não é hipócrita. E tem razão, toda a razão. Se o assento é de cada um, o acento é de todos.

Na sociedade contemporânea, mobilizam mais as coisas fraturantes do que as causas sociais. Recordo, há anos, a esmagadora manifestação, em Lisboa, da chamada geração à rasca. “Porque está aqui?”, inquiriam os repórteres. “Porque estou”, foi a resposta que me esfalfei de ouvir. Ingénua, iníqua, sobretudo despolitizada. Nas eleições subsequentes, aquele quase meio milhão foi para a praia ou até votou na praia favorita dos que silenciaram, foram cúmplices e mesmo intérpretes das maiores sevícias que conduziram Portugal ao precipício.

A descrença na classe política funciona assim mesmo. Engrossam os abstencionistas, aumentam de forma ligeira aqueles que entram em rutura com os discursos tradicionais, mas continuam maioritários os que valorizam a razão pessoal em detrimento da razão colectiva. É o masoquismo, ainda que inconsciente, a predominar e a trucidar a verdadeira razão. O futebol congrega, as televisões relaxam, as festas amainam. Vivemos, por cá, no Portugal da tanga, no Portugal da treta. Assertivamente, jamais darei a retaguarda, até porque me fascina a vanguarda.

© Destak
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