COLUNA VERTICAL

Nostalgia

15 | 11 | 2016   21.35H
José Luís Seixas
Não. Não vou falar da vitória de Donald Trump e das suas causas profundas. Não vou falar da crise da democracia e da representação dos poderes. Não vou falar do momento complexo que a Europa vive pós Brexit e da iminência de uma forte réplica no referendo italiano. Também não vou falar da vergonha do comportamento da nova Administração da CGD e das responsabilidades políticas de quem a nomeou e pactuou com as exigências que se conhecem. Não vou falar em nada disto porque as crónicas abundam, os comentários proliferam, as análises sobrepõem-se e resta aguardar que os presságios – bons ou maus – se confirmem e esperar que a realidade das coisas nos surpreenda. Falo do sentimento da perda que esta semana registei com particular evidência. É uma geração que vai desaparecendo e, com ela, uma certa forma de estar, de ser, de se relacionar, de escrever, de cantar. Foi uma semana em que a cultura, a elegância, o bom gosto, mas também a exigência e a capacidade de se refazerem percursos e vidas – privilégio de alguns, poucos, abençoados – foram tocados pela orfandade, ficando mais frágeis e desamparados nesta época estranha em que a imagem dos que partiram realmente destoava. Dei por mim a ouvir obsessivamente Cohen. Como se quisesse reencontrar um mundo que parece ter acabado. Como se conseguisse rebobinar a vida e reencontrar-me com uma certa forma de ser e de estar que estes últimos 20 anos de tanta voracidade consumiram. E ressuscitar tempos, valores, sentimentos, modelos de sociedade que sucumbiram a esta loucura cujo destino ignoramos, mas tememos!
© Destak
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