HORA BOLAS

Cuspidelas e aguarelas

20 | 11 | 2016   22.14H
João Malheiro
Foi há dias. Estava num restaurante acompanhado de uma amiga, aquela prática a que me habituei, para zelotipia de tantos, e a que jamais renunciarei ou não desse o feminino mais graça à graça de um qualquer repasto. A neta do dono do estabelecimento, com genuinidade infantil, própria de oito anos de alma, questionou se éramos marido e mulher. Intrigada, perante a negativa, perguntou se éramos namorados. Alcovitada com outra nega, tirou a sua conclusão sem o mínimo de pejo. “São amigos coloridos, já entendi”. Eu e a minha companheira de circunstância sorrimos, não de forma cúmplice, antes pelo arrojo de uma garota a pronunciar uma frase quiçá imprópria para a idade. Com generosidade, quis apurar se ela sabia quem era o primeiro rei de Portugal, testando-lhe outros conhecimentos, porventura corriqueiros. “Não sei, ainda não me ensinaram na escola”. Fiquei aturdido, a menina frequenta a velha terceira classe e desconhece quem foi o primeiro monarca de um país que é só aquele que tem as mais antigas fronteiras da Europa. Não sou professor, não sou metodólogo. Mas percebi que a menina aprende o adulto na TV e não o primário na escola. Meditei sobre isso, valendo-me do futebol. Tenho levado, temos todos, há mais de uma semana, com uma suposta cuspidela do presidente do Sporting ao seu homólogo do Arouca. Por acaso, apesar da minha farpela benfiquista, até não corroboro a versão. Mas já corroboro a ideia de que para quem ama futebol esse episódio, explorado até à extenuação, agride a minha suscetibilidade. Vivemos num mundo em que o audiovisual ordena e formata sensibilidades. Eu prefiro um mundo que ordene e formate sensibilidades com pedagogia, com categoria, com encanto. Sou impotente nessa cruzada? Mas tenho o direito de me sentir indignado quando se cospe na bola.
© Destak
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