HORA BOLAS

Chá e Sofá

27 | 11 | 2016   21.07H
João Malheiro
A plateia era vasta, era polivalente. Foi há dias, poucos dias. Foi à mesa, muita mesa. Gente do futebol, pró-futebol, para-futebol. Gente que gosta de escutar, de dissertar, também de acertar. Fiz a pergunta, retrospetivava-se o empate (3-3) do Sporting, em Guimarães, depois de estar a vencer por três golos de diferença. “Por que razão o futebol é mais imprevisível nos resultados do que o basquetebol, o andebol ou o voleibol?” As respostas foram copiosas. Para minha constrição, algumas delas nos antípodas da razão. Já outras com razoável aproximação, ainda que não no grilhão da satisfação. “Simples, é porque se joga com os pés, enquanto as outras modalidades se jogam com as mãos.” E é mesmo. Sem altivez, até pela presença de grandes figuras do futebol, convenci os meus interlocutores sem qualquer empache e até com o devido encaixe. Na última semana, o Benfica serviu chá na Turquia, numa primeira parte que provocou um regalo desusado, ao ponto de parecer que estávamos na presença daquelas antigas formações rubras que suscitaram encantatória na Europa da bola. Só que na outra metade, o conforto do sofá traiu as expetativas, ao ponto de parecer que estávamos na presença de uma daquelas formações rubras incapazes de respeitar o histórico do maior clube nacional. A minha tese reforçou validade. Mais ainda, não se ganham jogos ao intervalo, a despeito de uma exibição demolidora e até com átimos de magia. O Benfica consentiu a igualdade, porque os pés não são mãos, porque os pés não possuem a precisão das mãos, porque os pés (e não as mãos) jamais podem desligar-se de outras demãos. A demão da irreverência, a demão da competência, a demão da eficiência. Houve chá, depois houve sofá. Houve lição. A lição de que os pés nunca têm a cortesia das mãos. E das demãos.
© Destak
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