HORA BOLAS

Bola (também) é macumba

04 | 12 | 2016   22.56H
João Malheiro
Quem diria? Ainda há dias, na Luz, o Benfica havia dado uma surra de bola ao Marítimo na prossecução dessa consensual etapa de autoridade e até opulência. Agora, perdeu no Funchal e carreteou de um imprevisto oxigénio emocional os seus dois mais diretos e crónicos competidores, Sporting e FC Porto, vencedores na última ronda da Liga. O futebol tem esta versão de macumba. As previsões, volta e meia, não obedecem às lógicas traçadas e transvertem dados tidos por adquiridos. O Benfica continua líder? Mas o Sporting passa a depender de si, mais o afluxo anímico de medir forças na praça vermelha já no próximo domingo. Até um débil FC Porto, com 500 minutos ininterruptos sem o prazer de violar redes, reganhou a componente erótica na competição, que o mesmo é dizer não à abstinência e sim à virilidade competitiva. Um jogo, apenas um jogo, pode alterar a correlação de forças no futuro imediato. Já a meio desta semana, Benfica, Sporting e FC Porto vão ter compromissos europeus de caráter resolutivo, o que pode pesar na fecundidade imediata da bola caseira. Continuo a sustentar que a esquadra rubra é a mais dotada, continuo a sustentar que a esquadra azul é a mais descoroçoada, mas reforço a convicção de que a esquadra verde é a mais encorajada. Só que a tal macumba também pode impor episódios absurdos ou não fosse a bola uma fêmea com imprevisibilidade, circunstância que dela faz mais tentadora e cobiçada. A Liga, a nossa Liga, a Liga do país campeão da Europa, liga-nos entusiasticamente. Nós ligamo-nos à Liga com o deleite de encontrar no futebol o melhor espaço para cultivarmos a igualdade e o consolo. Benfica, Sporting e FC Porto são amados e odiados. São evocados e asseteados. Mas alguém lhes resiste ao fascínio epopeico?
© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE