HORA BOLAS

Melhor e maior

11 | 12 | 2016   19.30H
João Malheiro
Eu sou o mais cobiçado, o mais atraente, o mais sedutor. Eu sou o melhor, sou de longe o maior. Os outros, todos os outros, são muito pequenos ao pé de mim, nem sequer me conseguem morder o tacão. Tentam, às vezes, de forma tão furiosa quanto ciumenta, quase há um século, pelo menos em Portugal, mas não conseguem. Não conseguem nem conseguirão. Excito as massas como mais ninguém, provoco lubricidade antecipada, sensualidade acelerada, voluptuosidade memorada. Sou inclusivo, homens e cada vez mais mulheres deixam-se inflamar por mim. Não admito que me critiquem pela minha abrangência, até crianças e velhos sonham comigo, querem fruir comigo. Desperto um sentimento de posse sem igual. Sou o mais cortejado, o mais galanteado, o mais namorado. Sou assim, fui sempre assim, serei sempre assim, nunca serei assim-assim, é a mim que dizem sim, é a todos que digo sim. Visitam-me com catadupas de emoção, até não cabem na lotação. Eu queria, mas não poderia. Dou as maiores audiências, desencadeio as melhores assistências. Eu pretendo e sei que prendo. Tenho história, fico na memória, esporeio a encantatória. Serei egocêntrico? Mas, afinal, quem fez de mim aquilo que me dizem? As palavras que me enviam, os textos que me encaminham, os gabos que me destinam. Não sou compensador? E daí? Hoje, amado; amanhã desadorado. Mas sempre, sempre, respeitado. Já fiz bastante por gente, muita gente, que até eternizei. Verdade que também, involuntariamente, outra gente, menos gente, enterrei. É comigo que se decide o capaz e o agraz. É comigo que se decide o competente e o insciente. É comigo que se decide o laureado e o derrotado. Dou alegria e dou alergia. Dou o que que dou, outros que saibam dar e legar. Tenho nome de origem inglesa, o que tem muito de realeza. Chamo-me dérbi.
© Destak
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