COLUNA VERTICAL

Da vida e da morte

10 | 01 | 2017   23.42H
José Luís Seixas
Citando Machado de Assis, «está morto: podemos elogiá-lo à vontade». Nada mais verdadeiro, principalmente para quem, em vida, concitou paixões diversas e antagónicas. A morte propicia a unanimidade no elogio, porque, na verdade, ninguém é absolutamente mau ou inteiramente bom. O defeito e a virtude coabitam em cada um e traduzem essa circunstância que nos individualiza e humaniza. Somos o que somos por múltiplos factores externos que nos forjam o carácter e nos definem a personalidade. Por isso, tanto alguém propenso à cobardia pode praticar os actos mais heróicos, como o corajoso pode borregar perante uma qualquer situação que psicologicamente o atinja. Tudo isto é, diga-se e reconheça-se, um inventário de lugares comuns. Por isso, perante esta atmosfera de luto profano que absorve os nossos quotidianos, uma última reflexão me é sugerida. As histórias que, neste contexto algo lúgubre, nos são descritas sugerem que a geração de políticos forjados nos pós-guerra que viveu a política com sentido de projecto e de serviço se finou. Muito por culpa de algum diletantismo, que terá de lhes ser também atribuído, despreocupou-se com a intendência e entregou-a aos “mangas de alpaca” que, pensava, nunca arranjariam fôlego para a defrontar e, nalguns casos, afrontar. E muito por culpa de um culto da personalidade que foi consentindo, tolerou que os exércitos de sabujos dependentes (assume-se a redundância) crescesse, dominasse os partidos que fundou e acabasse por ocupar o poder. Talvez por isso, a geração de políticos que Mário Soares integrou morreu com amargura e decepção. Não por falta de homenagens, aplausos e encómios. Mas porque quem lhes sucedeu no comando das nações são, em grande medida, o fruto dos seus defeitos.
© Destak
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