COLUNA VERTICAL

A nova política

07 | 02 | 2017   22.13H
José Luís Seixas
As primeiras semanas de Trump e as extravagâncias discursivas associadas ao lançamento da candidatura de Marine Le Pen e ao seu cardápio de 144 medidas têm esgotado a opinião e dominado de forma infrene todo o espaço comunicacional. Já tudo se disse, todos os fantasmas foram agitados e todas as previsões anunciadas. Sinceramente, o que me espanta é o espanto suscitado. O que me preocupa é ter a percepção de que a grande maioria das observações do fenómeno não passam da mera espuma dos dias, de uma superficialidade perigosa, porque indutora do medo e não denunciadora da razão de ser deste novo paradigma. Ora, não querendo parecer presunçoso, desde há muito não tem faltado quem alerte para esta emergência. Muitos autores a vaticinaram aquando do debate sobre a Constituição Europeia, ou aquando da crise de 2008, ou aquando do modismo das novas escolas económicas e dos seus modelos de governação. O Ocidente aburguesado, refastelado nos réditos acumulados à custa da globalização e do embaratecimento dos factores produtivos, tornou-se obeso, cínico, egocêntrico, sem valores, coragem, bandeiras. Os referenciais da cultura europeia foram defenestrados. A natalidade baixou dramaticamente. O estrangeiro foi chamado por necessidade de mão-de-obra e o ideal multiculturalista serviu as sociedades do conforto para justificar as novas realidades sociológicas acomodadas urbanisticamente nas margens da cidade, evitando confusões e miscigenações. O amor ao próximo reduziu-se à pregação eclesial perdida no próprio eco. E um dia tudo implodiu. Os bancos, a economia, o tal mundo de bem-estar, a certeza de futuro. A profecia ameaça concretizar-se e o capitalismo capitular aos seus próprios vícios. As escolas económicas iniciaram já a exculpação dos males que fizeram aos governos das nações. Perante tudo isto, mais do que a avulsão de opiniões alarmistas sobre o que se avizinha, será importante saber resistir-lhe. E apenas a chanceler alemã parece ter percebido isso!
© Destak
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