HORA BOLAS

Eusébio (não) leu

05 | 03 | 2017   18.19H
João Malheiro
Foi no contexto das Correntes D’Escritas, importante certame cultural, anualmente organizado na Póvoa de Varzim, esta edição até com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa, com quem tive oportunidade de trocar impressões sobre a minha biografia de Eusébio, inclusive com um escrito do atual Presidente da República. «O Eusébio lia?», perguntou-me alguém. Respondi que não, quanto muito as epígrafes de um jornal desportivo, ainda que fosse cliente atento dos noticiários televisivos. «Então, nunca se emocionou com um texto?». Tive que ser presunçoso e recordei o que sobre ele escrevi e lhe li, corria 1998, num restaurante, em Benfica, paragem obrigatória de muitos aficionados da doutrina da bola. José Águas, essa figura incontornável, foi uma das testemunhas. O Eusébio comoveu-se, guardo o episódio no canto mais lindo da minha memória. Aqui reproduzo alguns extratos com uma dedicatória apaixonada ao amigo de tantos anos e ao ídolo de sempre e para sempre: «o maior futebolista português de todos os tempos viveu períodos em que a sua vida desportiva se confundiu com a fábula. Exornou os requintes de um campeão. Merecido para o predestinado, mas sempre trabalhador insano, lutador indomável. Repentista, intuitivo, enleante, não deixou de ser um ótimo companheiro e um admirável adversário. Engalfinhado em lesões várias e incompreensões múltiplas, superou com elevação aflições, dores e raivas. O futebol cristalino de Eusébio provocou hemorragias coletivas de prazer. Deixou páginas ornadas de fantasia, de magia. Disputou desafios épicos, aos quais emprestou golos plasticamente belos. Chegou a deixar o País em transe, agitou o orgulho pátrio. Fez o mundo acordar vermelho e… português.» O Eusébio ouviu e, lacrimejante, sorriu. Naquele seu jeito amoriscado por coisas bonitas.
© Destak
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