OPINIÃO

A atualidade do Guernica de Picasso

11 | 04 | 2017   23.05H
Eduardo Vítor Rodrigues (Presidente da Câmara de V. N. Gaia)
Pelos 80 anos que se celebram desde que Pablo Picasso pintou uma das mais célebres telas de sempre, o Guernica, o Museu Reina Sofia de Madrid prepara uma exposição com uma nova leitura sobre o quadro. Na famosa tela podemos ver as consequências humanas e físicas do bombardeamento alemão da vila basca de Guernica durante a Guerra Civil Espanhola. 80 anos depois, será que podemos ler mais do que as circunstâncias que levaram o artista a criar uma das obras mais emblemáticas de sempre? Ao pensar no quadro, invoco os atentados terroristas em Nice, Berlim, Moscovo, Paris, Estocolmo, Londres que nos deixaram prostrados perante a tragédia humana debitada ao segundo pelos nossos televisores e rádios. Ao olhar para este quadro vejo o nosso mundo atual, cheio de contradições, cheio de horrores, cheio de sofrimento humano. A tela é um exemplar do cubismo ou do expressionismo abstrato conforme as opiniões dos entendidos, mas a sua interpretação poderá ser de um realismo cruel. É a crueza do desamparo e da fragilidade da experiência humana que ali vemos. De maneiras completamente diferentes, o tempo desenha novas formas e conteúdos, os horrores do tempo de Picasso são os nossos horrores do presente. A Guerra na Síria dura há sete anos. A semana passada ficámos a saber que os EUA intervieram neste campo de batalha depois de ter sido lançado um ataque químico contra civis. Mas Guernica é um símbolo de paz e de protesto contra a guerra. Isto é aquilo que devemos retirar da experiência de contemplarmos esta obra de Pablo Picasso. É esta mensagem de paz e de indignação perante os conflitos e a guerra que eu quero sublinhar perante todos os leitores. Queria um mundo onde a Guernica fosse mera curiosidade e não um retrato realista da experiência humana. A arte desinquieta-nos e Guernica continua a fazer-nos refletir sobre a violência como facto humano intemporal.
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