OPINIÃO

Uma carta contra a cartilha

12 | 04 | 2017   22.08H
Lídia Paralta | destak@destak.pt
Salvo honoráveis exceções – que existem –, os programas de comentário futeboleiro (não vamos confundir com futebolístico, seria uma afronta para o futebol) são uma passarela de discussões com utilidade próxima do nulo, em que gente fala por cima de outra gente e se exacerbam polémicas e inflamam casos. Discutir futebol, o futebol propriamente dito, não existe ali, interessa mais bater com o punho no peito. Os formatos levam a isto mesmo: escolher “adeptos” em vez de gente entendida e sem obrigação de defender uma causa (a não ser a causa do bom futebol) dá muito mais audiência e momentos zen para colocar no YouTube ou partilhar em blogues e redes sociais. Sabe-se agora que há cartilhas e que alegadamente vários comentadores afetos a determinado clube recebem, digamos, guiões ou indicações ou o que seja, e que por ali devem conduzir o seu discurso. Não sei se quem recebe a dita cartilha a desbobina: como sou um bocadinho naïf, e gosto muito mais de futebol do que de clubes, continuo a achar que há quem pense pela sua cabeça. O que me choca, e chamem-me ingénua à vontade, é que haja quem defenda estas práticas, como vi jornalistas a fazê-lo na TV, como se um clube a tentar uniformizar opinião fosse uma coisa moralmente respeitável, porque demonstra quão “organizada a comunicação de um clube é”. De facto, ninguém está impedido de o fazer, ainda para mais se há quem aceite reproduzir a cassete. Mas não me digam que é bonito, ai isso não me digam.
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