COLUNA VERTICAL

A história de uma desgraça

21 | 06 | 2017   00.50H
José Luís Seixas
Permitam-me que conte uma história. Remonta a três décadas atrás. Portugal aderira à então CEE. O dinheiro dos fundos comunitários entrava a rodos. Encontráramos o novo Brasil. Ou, mais longinquamente, as especiarias da India. A agricultura portuguesa era alvo a abater. Imposição da célebre PAC. Além do mais, dava trabalho e pouco rendimento. Nas Caixas de Crédito Agrícola comissionavam-se projectos que eram replicados sem olhar a terrenos, a culturas, ao clima, ao futuro. Pagava-se para arrancar vinhas, pomares, searas, culturas autóctones. O desiderato (palavra horrível) era transformar o interior do País - sacrificado, pobre, de pequenos proprietários ou de médios lavradores - numa floresta intensiva anunciada como o novo ouro que irromperia exuberante e encheria os bolsos de tantos que tanto trabalharam para tão pouco. E foi tudo a eito. Do centro para o norte o interior viu a sua agricultura ser substituída pela floresta. A primeira geração recebeu as competentes indemnizações ou, de forma mais crua, o óbolo europeu. As gerações seguintes migraram, em busca de trabalho mais "limpo" e, pensavam, mais rentável e seguro. Mas nem esta expectativa se verificou, nem a floresta se revelou o maná prometido. Portugal empobreceu. O Interior desapareceu. O matagal cresceu na estrita medida dos elevados custos da limpeza das matas que, aquando das prebendas comunitárias, ninguém calculou. Sou da província. "De Bragança é que eu sou", como exclamava Afonso Praça. E dali assisti a tudo isto. À destruição do meu País. À inexistência de critério de florestação, ao desaparecimento das culturas tradicionais em troca dos fundos “a fundo perdido”, tudo estimulado pelos agiotas da integração europeia. O interior definhou. E arde agora. Todos os ministros da agricultura, desde Cavaco a Guterres, consentiram este crime. Vergonha, é o mínimo que se lhes pede. E não falamos do pousio obrigatório negociado a pataco. Nem, no mar, do abate da nossa frota pesqueira. Não choremos, pois, o infortúnio. Recordemos, sim, que todos fomos cúmplices, alguns por acção e muitos por omissão, desta desgraça que se abate sobre todos nós! O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE