COLUNA VERTICAL

Lições da tragédia

27 | 06 | 2017   23.23H
José Luís Seixas
A tragédia de Pedrogão – e a ela voltamos porque apela a uma reflexão profunda sobre o País – elucidou-nos sobre muitas coisas. Desde logo sobre a irresponsabilidade como se encara o acto de governar, de administrar o bem comum, de servir a comunidade. Em Portugal, governar é a gerir a circunstância, a conjuntura, o momento e as expectativas da opinião pública. Depois exibiu a fragilidade imensa do Estado e das suas estruturas, a falta de programação, a aversão à cooperação entre serviços e organizações, a reserva sobre qualquer tipo de coordenação. Todos vivem a lógica da departamentalização, porque a responsabilidade é contaminante e quanto maior a integração maior, mais plural e mais séria aquela se torna. Desfez essa miríade de sermos um País moderno, tecnologicamente desenvolvido, utilizador dos métodos mais avançados e eficazes em todos os domínios. Viu-se na realidade hoje conhecida daquela tragédia que não temos nem meios, nem preparação, nem estrutura, nem organização para confrontar situações desta natureza e magnitude e, porventura, outras de menor dimensão. A ninguém é lícito invocar a ignorância dos riscos e a necessidade de os prevenir. Nestas duas últimas décadas desarticulou-se tudo o que de bom e eficaz ia existindo. Primeiro por razões ainda nebulosas envelopadas num discurso pretensamente reformador. Depois por uma gestão da crise financeira em que, para acautelar o acessório, se prescindiu do essencial. Neste caso, opção sem espinhas porque pouco notória e nada notada. Ficamos, em suma, a saber que estamos entregues a nós próprios. Os crentes, como eu, ainda têm o privilégio de se poderem entregar nas mãos da Divina Providência... O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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