COLUNA VERTICAL

Estranhos encontros

10 | 10 | 2017   23.10H
José Luís Seixas
I. Estacionou o carro e vestiu o casaco. Atravessou o passeio. Na esquina cruzou-se com uma senhora alta e de traços finos. Olhou-lhe o rosto. Pressentiu tristeza e angustia. Sem perder o seu porte digno a senhora abeirou-se dele. Os olhos lacrimejavam. Balbuciou um “desculpe” sofrido. Ele afastou-se dela justificando falta de tempo. E prosseguiu o seu caminho mergulhado na sua própria vergonha. Porque não parara? Porque não perguntara se poderia ser-lhe útil? Interrogava-se sobre a razão do seu insólito comportamento. Mas a sua reflexão não o levou a retroceder. Ao contrário, acelerou o passo como se fugisse de si próprio. II. Sábado. A tarde sucumbia nas últimas lágrimas de luz. Caminhava para o seu escritório como era hábito. Acabado de entrar na rua deparou-se com uma jovem de óculos, com ar simpático e sorridente. Ela olhou-o e cumprimentou-o. “Boa tarde”, disse. Ele ficou atordoado. Respondeu “obrigado”. Achou tão insólito o episódio que apenas lhe ocorreu a existência de um conhecimento pessoal fugaz provindo das amizades dos filhos. Porque não era normal que quem se cruzasse na rua se cumprimentasse. III. A estreiteza dos nossos mundos vai-nos devorando aos poucos. Já não somos nós com os outros. Somos somente nós. Os outros são realidades distantes que ignoramos e queremos ignorar. Nós, este nós que não se abre, não acolhe, não abraça, não sofre com o sofrimento nem rejubila com a alegria do seu semelhante, é um nós moribundo. Que se vai decompondo sem nunca perceber o que perdeu nos olhares que não viu, nos gestos que não observou, nos sorrisos que não replicou, no amor, enfim, que nunca verdadeiramente sentiu. A não ser, talvez, por “nós”. Próprios e propriamente ditos. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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