HORA BOLAS

A goleada de Marcelo

22 | 10 | 2017   23.30H
João Malheiro

Foi um domingo hediondo. O verão alongado, para gáudio de muitos, constituiu-se a tragédia de outros, flagelo que mereceu a solidariedade unânime no contexto lusitano. De imediato, sinal dos tempos, a comunicação social, menos serviço e bem mais indústria desaforida, arremessou lascas assassinas contra a ministra da Administração Interna. Nas redes sociais, ainda mais sinal dos novos tempos, a sentença foi majoritária e ruidosa.

Conheci, há muitos anos, Constança Urbano de Sousa, ela adolescente, eu pouco mais. Era o tempo de convívios juvenis, em Vila do Conde, onde até acorria um garoto conhecido por Zé, hoje o carismático José Mourinho. A Tancinha, assim lhe chamava, era uma menina discreta, de opinião serena e fundamentada, mas ninguém ousaria prognosticar que viesse a ser governante. Filha, para os mais desinformados, do juiz Alfredo José de Sousa, um dos mais notáveis magistrados de Portugal.

Constança demitiu-se depois do fatídico domingo. Titubeou em primeira instância, foi mal interpretada numa declaração pública. Tem comprometimento no recente desastre? Tem, com certeza. Mas não tem mais que tantos e tantos responsáveis, esses que ao longo de anos assumiram tarefas da mais alta responsabilidade, e que agora, demagógica e despudoradamente, procuram capitalizar dividendos políticos. Acresce que Constança estava demissionária, ao que julgo saber, desde o flagelo de Pedrógão.

Depois do fogo, de lamentáveis vítimas credoras de toda a solidariedade, emergiu o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Soube sovar e soube mimar. O mais alto magistrado da Nação, num momento delicado, não fraturou à direita nem à esquerda. Por isso é que o povo se orgulha numa presidência de novo tipo, que avoluma a autoestima nacional e a curiosidade (ou inveja?) internacional.

© Destak
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