COLUNA VERTICAL

Os comentadores

24 | 10 | 2017   23.12H
José Luís Seixas
O acompanhamento dos “desenvolvimentos noticiosos” propicia a descoberta de uma nova dimensão da informação. Não se satisfaz com a descrição dos factos. Estes reduzem-se a meros pretextos para a construção do espectáculo que concita interpretações, valorações e prognoses. Vai daí, selecciona-se uma corte de comentadores que, na emergência da notícia, aceita dividir com o povo ignaro o apuro do seu verbo e a iluminação da sua inteligência. Há uns que se arrumam em especialidades, coutadas exclusivas de que só os próprios detêm a chave. Há outros que se consideram possuídos de uma presciência horizontal abarcadora de todos os ramos do saber. Assim, se a notícia é sobre o acidente doméstico da Dona Albertina que caiu na cozinha quando dava de comer ao gato e fracturou a bacia – circunstância de relevante interesse para a Nação – as televisões convocam um médico que explicará o que é a bacia, um veterinário que detalhará as necessidades alimentares do felino, um advogado que dissertará sobre a responsabilidade civil pelo risco de ter um gato, um nutricionista que avaliará a qualidade do penso e, possivelmente, um engenheiro que analisará a insegurança dos pavimentos em azulejo sanitário como o da cozinha da infortunada D. Albertina. Mas se acaso o acidente ocorrer em dia pródigo em catástrofes, a economia de meios impõe que num só comentador se reunam todas estas valências do conhecimento humano. E o especialista em generalidades sobre tudo discorrerá com a certeza e a segurança do omnisciente. Ninguém, no entanto, ficará perturbado se afinal se verificar que a D. Albertina não fracturou a bacia mas o perónio, não tinha gato mas um canário, não escorregou na cozinha mas na banheira. Ou seja, todo este exército de comentadores especialistas e de especialistas em comentários se disponibiliza para falar sobre factos que, na realidade, não conhece nem domina, sobre circunstâncias que não pôde observar nem analisar, sobre situações indemonstradas. Quedam-se, assim, nos pressentimentos e nas suposições. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE