INSTANTES

A santinha

30 | 10 | 2017   23.20H
Luisa Castel-Branco
A minha avó tinha vários santos que adorava. Mas ninguém se comparava à Sãozinha. Vezes sem conta nos falava sobre ela e mostrava o retrato. Era uma rapariga sorridente, muito bonita, com um ar calmo de quem se acabou de vestir para ir dar um passeio. Mas o fantástico, o verdadeiramente fantástico, era o facto de que enquanto os outros santos estarem no altar e em pedra, com a Sãozinha era tudo diferente. Eu devia ser muito nova a primeira vez que fiz a viagem. Viagem longa a de Lisboa a Alenquer como era então. Recordo perfeitamente o dia maravilhoso, frio mas límpido e sem vento. Tivemos que ficar bem cá em baixo e subir a pé até à casa da santa, sim porque era aí que íamos, atendendo ao grande número de pessoas que iam ao mesmo. Eram filas e filas ordeiras. Homens e mulheres com a melhor roupa, a roupa de ver a Deus que levavam à missa. Crianças em silêncio que não havia ali lugar para brincadeiras ou coisas mundanas. A minha roupa pigava-lhe. A maldita saia de fazenda com um casaco a condizer dava-me vontade de me coçar a toda a hora. Mas a minha avó mantinha-nos na ordem sem ter que abrir a boca. Depois de uma subida nada fácil chegamos à casa da Sãozinha. E não é que era mesmo uma casa igual a qualquer outra? À porta a fila estreitava-se para poder entrar. Percorria-se o corredor e depois virava-se e entrávamos diretamente no quarto dela. A cama feita como se a menina se tivesse acabado de levantar. As bonecas. O armário com roupa e inúmeras imagens de Cristo e Jesus. O sol entrava pela janela com força e batia no espelho do armário. Havia depois o resto da casa a visitar. E sempre em silêncio as pessoas caminhavam em bicos dos pés até voltarem a sair para a rua. Veio-me isto à memória. O sentimento, um misto de medo e prazer por fazer parte da história, a curiosidade que as crianças têm. E recordo que muitos anos depois fui procurar informações sobre a santinha da minha avó Conceição, que afinal não era santa nenhuma. Apenas alguém que fizera o bem e, segundo rezam as crónicas de quem estava lá, deu a sua vida pela conversão do pai. Nunca soube se o senhor se converteu ou não. Mas ainda hoje revejo a inocência daquelas gentes todas, da minha avó e nós pela mão dela a olhar o retrato da menina. Eram tempos de pureza. Eram tempos de sonhos cor de rosa mesmo que para tal alguém tivesse que morrer a praticar o bem.
© Destak

3 comentários

  • Ó malguinhas, vai-te catar, pá !
    ROSTROF | 05.11.2017 | 07.00Hdenunciar comentário
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  • Ai Luisa . . . Luisa . . . ! Repare bem . . . querida . . . ! Que manter a "malguinha" . . . ! Bem "asseada" . . . ! Também pode....fazer "milagres" . . . ! ! !
    Alexandre Barreira | 03.11.2017 | 14.28Hdenunciar comentário
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  • A minha mãe tornou se uma espécie de devota da Sãozinha. Tinha um livro que eu, só uns bons anos mais tarde, me lembrei de ler. De facto, parece que a história dela é simples, mas...não será nas coisas pequenas e simples que se vê a santidade de uma alma? Vendo pelos olhos do mundo, não passa de uma menina que só fez com que o pai se convertesse, mas não terá sido mais do que isso? Hoje, muitas pessoas, mais do que pensamos, são devotos dela, e conseguem alcançar graças, recorrendo a ela...é isto apenas fé? Quem crê, acredita que não, apenas crê. Eu todos os dias rezo, e no final do terço, beijo a imagem dela, que trago na minha carteira... Sei que aos olhos da maioria, isto pode parecer disparatado nos dias de hoje, mas.....será Deus temporal? Quem crê, acredita que não, e que os santos nos ajudam...Eu creio na Sãozinha, e peço lhe graças, não como quem pede um carro, ou uma casa, ou o euromilhoes, mas a graça de nunca perder a fé em Deus. Sinto que tenho sido ajudado, e isso basta me. Cumprimentos
    anónimo | 01.11.2017 | 15.30Hdenunciar comentário
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