HORA BOLAS

Um século de outubro

05 | 11 | 2017   23.33H
João Malheiro

Tinha tudo, mesmo tudo, para ser betinho, betinho ou menino-bem, como se classificava naquele tempo. Ser filho de doutor era a primeira etiqueta distintiva, até porque escasseavam os da mesma condição. A mesa convidava, o guarda-fatos suplicava, a biblioteca implorava a criada mimava, a bola de couro não faltava, o banho nunca esperava.

“Quando for grande, quero ser pobrezinho ou aleijadinho”. Era o que dizia, dizia sem mimo, muito menos com sarcasmo. Dizia com alvedrio, muito mais com solidariedade. Com nução e quase noção.

A penúria de muitos dos meus companheiros exasperava-me. Eram cabeças tingidas de privação, bocas deficitárias de regalo, bochechas castigadas de indiferença, pés triturados de nudez, almas sôfregas de justiça. Odiava o bibe, odiava a doutrina, aqueles que terão sido os meus primeiros reptos ao situacionismo.

Ainda lampinho, nos pavores da tirania nacional, com os ensinamentos e a conivência do pai, da mãe, da avó materna e do tio, ganhei simpatia por um país longínquo, que acreditava ter sentenciado de morte a exploração humana. No início da adolescência, agitado por dezoito verdes primaveras, lá estava, na Praça Vermelha, a comemorar um outubro, que agora perfaz a centúria.

Não perdi a matriz. Não perdi os ideais gentis. Mas aprendi que a glória não é o fim da história. Fiquei com um herói na memória. Disse ele que “enquanto o capitalismo e o socialismo existirem, não podemos viver em paz; no fim, um ou outro terá de triunfar”. Hoje, Lenine não aceitaria que a sobrevivência do capitalismo resulta da adoção de medidas socializantes e que até a inversa faz sentido nas escassas bolsas modernas de resistência socialista? E não será que continuamos longe do termo da história para que alguém reclame vitória?

© Destak
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