COLUNA VERTICAL

Um Outono cinzento

21 | 11 | 2017   16.46H
José Luís Seixas
Este anacrónico Outono que vivemos – e que nos coloca tantas e tantas inquietações sobre o futuro – tem confirmado que o precipício que muitos negaram existe, é identificável e, pior do que tudo, se aproxima a cada dia que passa. Não se trata de pessimismo ou de optimismo. Trata-se da leitura descomprometida e livre dos dados que são divulgados e dos acontecimentos que têm irrompido. Atente-se no discurso dos operadores turísticos sobre o carácter conjuntural desta vaga que tomou Portugal por moda e que, como todas as modas, corre o risco de ser efémera e deixar um lastro pesado que alguém terá de suportar. Veja-se a questão das carreiras na função pública e o efeito boomerang que a irresponsabilidade do governo consentiu ao abrir as portas negociais aos professores, fechando-as a polícias, militares e funcionários públicos em geral. Considere-se o OE para 2018. Pondere-se o peso insustentável da dívida pública que nos sufoca a um ritmo avassalador e que a retórica oficial persiste em dolosamente esconder. Recordem-se as tragédias passadas e recentes e constate-se a incapacidade do Estado em ser Estado, em determinar e decidir, satisfazendo-se com proclamações vazias e inconsequentes. A tudo isto some-se a crise catalã e, bem pior, a ingovernabilidade da Alemanha, com novas eleições no horizonte, ou seja, o “gripar” do único motor que fazia a União Europeia subsistir enquanto tal e que era o esteio da política monetária comum. Não é, pois, só a arrasadora seca que nos ensombra o horizonte. É toda esta constelação de factores indutores de uma situação que, podendo ser próxima, terá, seguramente, consequências imprevisíveis. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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