COLUNA VERTICAL

O orgulho, a morte e o vazio

05 | 12 | 2017   18.04H
José Luís Seixas
Para lá dos encómios a Centeno e à sua eleição para Presidente do Eurogrupo, pontuados por algumas análises que merecem ser reflectidas - como o magnífico artigo de Maria Fátima Bonifácio no Observador de ontem -, a comunicação social deu nota da intervenção do Presidente da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida, Jorge Soares, proferidas no encerramento do ciclo de debates “Decidir sobre o final da vida”. As suas afirmações sobre como se morre em Portugal - “mal, sem afecto e compaixão” -, a consideração de que, apesar das evoluções científicas e da medicina, “não se alivia o sofrimento sem empatia ou compaixão”, remeteu-me para o que há alguns anos escrevi nesta coluna e que, me atrevo a recordar: “(…) cabe interrogar o que fizemos de nós próprios? Talvez a resposta que encontremos nos ilumine sobre as razões da crise que atravessamos. Invertemos todos os valores e abjuramos todos os compromissos. Deixamos de ser Homens e Mulheres, Pais e Filhos, Esposos, Vizinhos, Cidadãos. De tudo abdicamos em função de um êxito profissional fugaz, do prazer de um instante, de um narcisismo cego, de um egocentrismo que nos secou por dentro até às entranhas. Repudiamos o sacrifício (como se ele não fizesse parte da vida), desvalorizamos a ética, acolhemos um relativismo que nos levou à desgraça. Poderá o leitor pensar que tudo isto não passa de uma arenga de maus fígados. Admito. Mas, creiam, esta é a razão profunda da crise dramática em que a Europa e os Estados Unidos mergulharam. O hedonismo, a especulação e a ganância soterraram a honradez, a seriedade, a probidade, a generosidade e a fraternidade. Esta nossa transformação deu frutos. Estamos, pois, a colher o que semeamos.” E, acrescento hoje ligando os três temas: não é a vanglória que se esvai na espuma do tempo que vence a crise que nos submerge. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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