COLUNA VERTICAL

Opinião pública

12 | 12 | 2017   00.21H
José Luís Seixas
Dizia Alain Minc a propósito do conceito de “opinião publica”: “É algo simultaneamente indefinível e ditatorial. Mas é o quê ao certo? As sondagens? Os editoriais da manhã? Os telejornais da noite? O que se discute nos cafés? A verdade é que mais uma vez ela surge como ocupando o espaço deixado vago pelas verdadeiras instituições. (...) Quando cada um se demite e as instituições desaparecem, os governantes estão perante algo de indefinível que é justamente a “opinião pública””. Esta observação é de pertinência e actualidade incontestáveis. Em cada português vive um comentador, um analista e um profeta. Se há expressão sem tradição no nosso linguajar popular é “não sei”. Português que se preze não abdica da sua genética omnisciência. Sobre futebol ou política internacional, teologia ou investigação científica, tem opinião sempre e sempre fundada. Ouçam os inesgotáveis fóruns com que rádios e televisões cobrem horários de pouca receita publicitária e as considerações expendidas em antena. Perguntar-se-á como esta característica identitária se compagina com a nossa taxa de iliteracia. Será que a estultícia se apoderou do País? Nada disso. O engenho português criou, abençoou e fez proliferar os comentadores televisivos. São a solução ideal. Pouco trabalhosa e altamente eficaz. Bem à nossa medida. Constituem uma forma de intermediação entre a fonte do saber e a sua interlocução. Formam o corpo de sábios deste tempo. São os arautos das verdades, os intérpretes dos sinais do Mundo. Majestáticos nas suas poses enciclopédicas, pronunciam-se ex catedra sobre qualquer matéria, do desporto à economia, da enologia à física quântica. Com total à vontade e insuspeito conhecimento. Resta, pois, ouvi-los e replicá-los. Aí temos a nossa opinião pública, resultado fácil e cómodo de reflexão por interposta pessoa. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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