COLUNA VERTICAL

A força do abraço fraterno

16 | 01 | 2018   23.26H
José Luís Seixas

A noite gelada encobria as muitas pessoas que aguardavam para saudar o filho do falecido. Ele mantinha o seu porte de uma serena nobreza. Agradecia, compungido, recordando, vezes sem cessar, os antecedentes e o momento do decesso. Chegou um amigo. Daqueles amigos que o são sempre, apesar de não estarem sempre. Que conhecera na faculdade. Oriundo de terras recônditas e aportado há muitas dezenas de anos à cidade. Que adoptou, transportou para sua casa e lhe proporcionou o conforto de muitos momentos de vida familiar. Abraçou-o fortemente. Como se as suas almas se irmanassem e fundissem naquela precisa ocasião de sofrimento partilhado. Chorou. “Sabes”, disse-lhe, “no momento da morte do meu Pai lembrei-me de ti. Da tua prostração quando te abracei no velório do teu. Só agora compreendi o que sentiste.” Recompôs-se e assumiu o seu porte digno. De uma dignidade interior. Feita de sentimento e de valores. De verdade.

Nesta época em que somos invadidos por fogos fátuos feitos de notícias pequenas sobre coisas pequenas de gente pequena, a imagem de um filho que chora a saudade do Pai abraçado a outro que, apesar dos anos, ainda partilha o mesmo sentimento faz a diferença. A diferença do amor e da fraternidade. Do ser. Do sentir. Enfim, da natureza do Homem, filho de Deus e Nele acreditando no sofrimento redentor.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

© Destak
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE