COLUNA VERTICAL

A civilização do momento na visão do pessimista

23 | 01 | 2018   16.12H
José Luís Seixas

Há quem acuse esta coluna de excessivo pessimismo. Porventura com razão. Mas os olhos do seu autor não lobrigam nos tempos que vivemos muitas razões para visões contrárias. É verdade que o sol nasce e brilha todos os dias, ora encoberto por nuvens intensas, ora limpo e radioso. É certo que a vida merece ser vivida e é o dom maior que recebemos. E com ela o amor, a amizade, a beleza, o génio humano, enfim, uma infinidade de Graças e Bençãos que nem sempre agradecemos, nem sempre estimamos e nem sempre protegemos.

Mas este domínio da urgência e esta vertigem do momento – que vão da política à economia e à sociedade – precipitam uma pressentida frustração colectiva. Confundimos o acessório com o essencial induzidos por uma lógica comunicacional que nos arrasta e submerge. O imediatismo que é reclamado pelas televisões e redes sociais condiciona os nossos juízos, comportamentos e valorações. Não há tempo para construir. Não há tempo para reflectir e para debater fundamentadamente seja o que for. Tudo queda na primeira das impressões. É essa que marca e é essa que dá forma à nossa percepção das coisas.

Ora, um momento destes, feito e consumido no curto espaço dele próprio, é muito pouco e permite quase nada. Donde o pessimismo. Que só vai cedendo na medida em que constata que vai nascendo e se formando uma geração que parece predispor-se a contrariá-lo, quer na generosidade dos seus actos, quer na autenticidade da entrega às grandes causas. Se assim for a centelha de esperança brilhará e, mais tarde ou mais cedo, ofuscará esta “civilização do momento” que nos vai matando a alma e incinerando a inteligência individual e colectiva.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

© Destak
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