HORA BOLAS

Os anjos e o demónio

28 | 01 | 2018   22.59H
João Malheiro

Desde que me conheço, sempre tive a fixação da rua. A rua, qualquer rua, é a expressão do total, é a expressão do global. Na rua desfila a variedade, desfila a multiplicidade. Ter rua é ter mais saber, é ter mais poder.

A rua aviva, ainda que também oprima. Nos últimos tempos, confesso que a rua me magoa com frequência. Porquê? Ironia das ironias, por causa do Benfica, de um Benfica que, estando no cume dos meus afetos, até é tetracampeão nacional pela primeira vez no seu prodigioso historial centenário.

A minha tolerância, a minha formação democrática, a minha cultura elástica começam a ser insuficientes para tantas abordagens, diretas ou indiretas, dessa insuportável rábula dos emails. Então o Jonas, então os outros? Então a excelência da formação, então o crescimento impetuoso do clube a todos os níveis?

Os opositores do Benfica, assanhados com a hegemonia vermelha, exasperam-se a marcar golos com emails na baliza moral da Luz. Digo e repito, só conheço dois antibenfiquistas com quem se pode conversar de forma cordial: um já morreu, o outro ainda não nasceu.

Só por mera curiosidade, sem branquear matéria passível de suscitar dúvidas ou apreensões: se os emails, em papel timbrado do FC Porto ou do Sporting, aparecessem na praça pública, alguém tem o desplante de garantir que poucas ou nenhumas dissemelhanças haveria?

Verdade que a minha avaliação é crítica, muito crítica, à forma como a estrutura de comunicação do Benfica tem reagido à interminável novela dos emails. Verdade, mais verdade ainda, que percebo a manobra concertada para diabolizar o clube que Eusébio me fez amar. Verdade, e ainda muito mais verdade, desenganem-se aqueles que nos protagonistas deste filme ditam os anjos (FC Porto ou Sporting) e judiciam o demónio (Benfica).

© Destak
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