COLUNA VERTICAL

Revisitação

06 | 02 | 2018   22.52H
José Luís Seixas
Observava o rio com um olhar ausente. Nem a cor escura da mistura pútrida de porcarias várias, nem a surdina dos pescadores decrépitos, nem os corpos entrelaçados dos pares de cinquentões em namoros clandestinos lhe quebravam aquele torpor estranho que o evadia de si próprio. Fazia muitos anos naquele dia de um Inverno gelado. Sentou-se na amurada. Constatou que há muito ultrapassara o cume da meia idade. Começara a ser velho e deixara, definitivamente, de ser novo. Fechou os olhos e adentrou-se na alma. Viu a sua vida em episódios espaçados. Recordou-se criança, reviu-se jovem nos alvores da revolução, revisitou a universidade e os primeiros passos da sua vida profissional. Reencontrou o quanto prometera e o quanto desperdiçara. Fez o que fez. Ignorava quanto tempo lhe restava. Sabia, tão só, que já tinha consumido grande parte de si. E como lhe parecia pouco... A verdade é que vivera muitos momentos de felicidade. Fugazes é certo, mas muitos. O rio escurecera à medida que a tarde caía. Uma brisa suave e fresca impunha um agasalho. Não é fácil ser quase sexagenário, pensou. Afirmam os médicos tratar-se da idade perigosa. Como se um dia, uma hora, um minuto mudassem a nossa fisiologia de forma tão brutal que de presuntivamente saudáveis passássemos a presuntivamente doentes. E sempre de doenças dolorosas, incapacitantes e, as mais das vezes, letais. Com incómodo e medo, lembrou a recomendação da revisão médica. Sabia que nada seria poupado à curiosidade clínica. Nem o último reduto da sua intimidade. Olhou de novo o rio. Cinzento e escuro. Sentiu-se invadido por uma enorme tristeza. Perdera as ilusões. Era cínico, descrente, azedo. Imaginou o que lhe restava de vida. Lembrou os seus Pais e os amigos que partiram. Uma lágrima escorreu-lhe pela face. Levantou-se e dirigiu-se para o carro. Triste. De uma estranha e doce tristeza que o embalava numa agradável purga de sofrimento. O sol avermelhado agonizava ao longe. Regurgitou a lampreia que saboreara ao almoço. Demasiado envinagrada. A azia queimava-lhe o estômago e o amor próprio. Todos os anos, no seu aniversário, desfrutava estes momentos pós-prandiais de depressão comprazida. Um esgar fez-se sorriso. O rio parecia-lhe mais claro. O autor escreve segundo a antiga ortografia.
© Destak
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