COLUNA VERTICAL

A triste sensação da desumanidade

13 | 02 | 2018   21.55H
José Luís Seixas

Permitam-me que cite um amigo: “Vivemos num país que ao mesmo tempo que recusa criminalizar o abandono de velhos passa a permitir que animais de estimação frequentem restaurantes.” Esta asserção actualíssima é, na sua extrema linearidade, o retrato do momento estranho que vivemos. A preocupação pelos cães e pelo seu bem-estar sobrepõe-se à preocupação pelo conforto e qualidade de vida dos velhos.

O cão, principalmente se de raça, é giro, divertido, um brinquedo que nos alegra o quotidiano. Sem outro compromisso que não mantê-lo enquanto desejado e descartável quando incómodo. Os velhos, os nossos velhos, sejam pais ou avós, principalmente se doentes, não são brinquedos. Vivem e dependem de nós. Exigem sacrifícios e dedicação. Reclamam amor e generosidade. Muitas vezes entrega. Total.

Viver a velhice dos mais velhos é tarefa pesada. Implica limitações várias. Da liberdade. Do divertimento. De prazeres. De parte da nossa vida. Mas eles foram os responsáveis, directos ou indirectos por sermos, por vivermos, por estarmos aqui, com a liberdade de os proteger ou desprezar.

Uma coisa é certa. E este é o aviso que aqui deixo. Temos a liberdade de acolher o cãozinho e rejeitar o velho. Mas, se assim procedermos que ninguém critique quem, quando idosos, nos olhar sem misericórdia nem amor e nos trocar por um caniche.

Se é isto que querem, estou, definitivamente, a mais. E buscarei nas oliveiras da minha terra o consolo das gentes que não esquecem quem precisa. Sem nada pedirem. E sem outra obrigação que o imperativo da sua consciência. E também têm cães e gatos. No lugar preciso que os cães e gatos preferem e para os quais foram criados.

Chamem-me o que quiserem. Alienígena neste mundo já sou!

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

© Destak
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