INSTANTES

Pai, a saudade nunca morre

19 | 03 | 2018   14.24H
Luisa Castel-Branco

Apareces assim de repente, sem aviso. Por vezes é o teu perfume, alfazema e tabaco, que vem de sítio nenhum. Outras, poderia jurar que sinto o teu respirar no meu ombro, uma sombra que não está lá mas que eu vejo, sei lá, sinto-te por todo o lado, sem descanso, ainda hoje, e já passaram trinta e seis anos desde que partiste.

O que pensarias que eu faço? De quem sou? A saudade não morre, e não se transforma em nada. É tão somente saudade do que não te disse, do que não me chegaste a dizer. De tudo o que deveríamos ter vivido, de todas as conversas, porque ainda havia tempo, e depois partes aos cinquenta e um anos, e deixas-me para aqui neste desassossego de alma, nesta culpa tão profunda do que não disse.

Queria tanto abraçar-te de novo, meu pai! Encostar a cabeça no teu ombro, envolvida pelo teu perfume e sabendo de antemão o quanto te incomodava qualquer manifestação de ternura. Se fosse hoje, se eu pudesse voltar atrás por breves minutos, cobriria o teu rosto de afagos e beijos molhados, e dir-te-ia vezes sem conta: amo-te!

Talvez por isto tudo, não me canso de dizer aos meus filhos o quanto os amo. Não creio que eles compreendam esta necessidade absurda. Mas não me importo. Temo partir de repente, como tu, e não lhes ter feito sentir que eles são tudo para mim, absolutamente tudo.

As pessoas não choram assim passados tantos anos. Ou talvez eu esteja errada. E alguém quando ler este texto reconheça a dor na alma, a dor imensa da ausência de quem se ama.

Que importa? Hoje sonhei contigo. Sorrias para mim.

In "Para ti, do fundo do meu coração"

Editora Clube do Autor

© Destak

3 comentários

  • O que é que está gaja está aqui a fazer?
    Pois, pois J. Pimenta! A dinâmica de sempre. | 28.03.2018 | 22.20Hdenunciar comentário
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  • -RITUAIS DA QUARESMA NA CIDADE INVICTA-----------------------------------------Na cidade do Porto, ainda no início do século passado, a Serração da Velha era efectuada na quarta-feira de Cinzas e a morte da velha simbolizava o fim do Inverno, a expulsão da morte, a celebração do renascimento da Natureza e a expulsão dos demónios do Inverno. Já de noite, um grupo de jovens, empunhando tochas, levava um cortiço em cima de uma padiola ou num carro de bois e dentro do cortiço ia uma velha feita de trapos e em tamanho natural; percorriam as ruas onde se sabia que habitavam velhas, fingindo serrar o cortiço, enquanto os acompanhantes faziam uma barulhada tremenda, batendo em tachos, soprando em cornetas, búzios, usando tudo o que pudesse fazer barulho[1]. Em coro, cantavam a seguinte quadra: Serra a Velha Serra a Nova, Serra o burro Da Praça Nova... Geralmente, as velhas nunca apareciam na rua, nem assomavam sequer à janela, embora houvesse excepções – às vezes lá aparecia alguma mais descarada que lhes respondia à maneira, ou outra que aparecia à janela e atirava um balde de água ou uma porcaria pior sem dizer ‘Agua vai!’, fazendo-os fugir a sete pés para outra rua mais calma. Finalmente, o grupo parava num local previamente preparado com um tablado – em cima dele eram feitos jocosos discursos e depois tudo terminava com a queima da velha, no meio de grande algazarra e da entoação da quadra atrás referida. Serra a Velha Serra a Nova, Serra o burro Da Praça Nova... Actualmente a Serração da Velha ainda se realiza nalguns lugares do Continente, onde se aproveita para no final, na leitura do testamento da Velha, em forma de verso, geralmente em quadras humorísticas e sarcásticas, para criticar as Juntas de Freguesia, as Câmaras, certas Associações e os seus dirigentes e até o Padre da localidade.
    RIC | 21.03.2018 | 11.02Hdenunciar comentário
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  • Como eu compreendo o que dizes.O meu partio à mais de noventa e ainda o recordo com muita saudade.
    RODAVLAS-já centenário | 20.03.2018 | 12.38Hdenunciar comentário
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