HORA BOLAS

Calvário vermelho

07 | 05 | 2018   00.33H
João Malheiro

A tertúlia era benfiquistamente maioritária. O Tondela (o Tondela?) acabara de vencer na Luz, na fase cardial da Liga. Dois ou três sportinguistas sorriam com suspeito escárnio, após o triunfo em Portimão, ouvindo as lamentações dos fiéis da causa da águia. Foi num café, próximo de Lisboa, numa atmosfera pesarosa, que fez a emoção, como dita a praxe, golear a razão.

Convidado a opinar, confessadamente aturdido, atirei com “o Jonas é mais importante do que o Eusébio”. Fez-se um curto intervalo na algazarra. Como poderia eu, toda a vida tão próximo de Eusébio, meu ídolo, meu mestre, meu amigo, até meu padrinho de casamento, secundarizá-lo? Socorri-me do início da década de 70 do século passado. Se o Eusébio não jogasse? Havia Nené, havia Artur Jorge, havia Vítor Baptista, havia Jordão. Havia tantos e tão bons, também na intermediária, também na defesa, também na baliza.

E agora? E neste embate com o Tondela? E antes com o FC Porto, o Vitória de Setúbal ou o Estoril? Não houve Jonas, houve menos Benfica, houve pouco Benfica, houve (quase) nenhum Benfica. Jonas, numa temporada horrenda, disfarçou erros de gestão e até poderia ter conduzido o Benfica aos píncaros da sagração.

A temporada ainda não terminou, há muito tetraorgulho a defender nas duas últimas rondas, sobretudo em Alvalade. Só que não há Jonas ou haverá um Jonas esmorecido, depois de uma pausa aflitiva, agónica mesmo. Este Benfica, paupérrimo na Europa, permitiu-se ser sádico, muito por força de Jonas, sugerindo o paraíso, na fase conclusiva da Liga, quando o cenário só poderia ser o abismo.

Perder com o Tondela na Luz? Que se lixem os vouchers, os emails ou as toupeiras, mas que não lixem o gigantesco universo vermelho, propiciando o calvário, a vertigem, a soberba, a incompetência. Gorda e com bigode.

© Destak
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